Terra de cabinha – Impressão de leitura, por Joel Cardoso
Acessibilidade
Somos seres da palavra… comunicamo-nos… precisamos – para nos inserirmos no contexto social – nos comunicar.
Na infância, universo da magia, essa comunicação ocorre de maneira espontânea, natural, gostosa… Depois, com o tempo, ao nos tornarmos adultos, vamos ficando mais seletivos, vamos perdendo a espontaneidade e adquirindo uma intencionalidade que rege (e precede) o discurso e causa, não raro, desconforto e mal-estar nos relacionamentos…
Recuperar esse mundo da espontaneidade, do lúdico, da pureza, da generosidade é, portanto, uma tarefa que devíamos levar sempre em conta.
Recebi, para meu deleite, mais um livro, “TERRA DE CABINHA”, da Editora Peirópolis, de São Paulo. Gentileza das amigas que fiz por lá. Certamente, um presente da vida… As amizades, via de regra, são (pelo menos para mim) tão o ou mais importantes que o amor…
O Brasil é um país que, até mesmo para nós brasileiros, continua desconhecido. Nós nos conhecemos muito pouco. Somos muitos brasis. O Brasil do norte não é o mesmo Brasil do Centro ou do Sul. Se nós nos identificamos em muitos aspectos, também, em outros, nós nos diferenciamos e apresentamos especificidades, nuances locais. Dessa somatória de estranhamentos e convergências é feita a nossa identidade.
A obra, fruto de uma coleta minuciosa na região do nordeste brasileiro, visa, prioritariamente, ao público infantil, mas extrapola essa intenção inicial. De que fala? O que relata?
Fala da fala popular dos meninos de lá, conhecidos como cabinhas. Percorrendo esse mundo da oralidade, fala de brincadeiras (tão gostosas nessa época da vida), de causos (que povoam o nosso imaginário), de relatos (sempre presentes em nossas rememorações), de adivinhações (perguntas que instigam a criatividade e, quase sempre, no final, nos surpreendem). Para a criança, o livro é uma delícia… Conhecer especificidades regionais, descobrir sonoridades de outros falares, somar conhecimentos, extrapolar os limites tacanhos dos nossos contextos imediatos, disponibilizar-se para o prazer, para o lúdico, tudo isso é fundamental e encontra, no livro, um pretexto para quem queira enveredar (e ir além) por esses rumos da cultura local, saindo do particular para o geral (e vice-versa).
Primorosamente ilustrado, TERRA DE CABINHA precisa que chegar às nossas salas de aula. A ludicidade, elemento tão presente e estudado nos cursos de formação de professores, tem que EFETIVAMENTE fazer parte do nosso cotidiano escolar. Só entendo uma aula de verdade se ela for interdisciplinar e, principalmente, prazerosa. Como estudar sem a motivação do prazer? Principalmente para quem trabalha com formação de leitores, com o público infantil. O livro, nesse aspecto, é um achado para os professores que trabalham com esse público.