Menu

Quando navios partem – Entrevista com os autores

Acessibilidade

Entrevista com Everson Bertucci e Cleber Zambarda, autores de Quando navios partem

Peirópolis: Everson e Cleber, vocês poderiam contar para os leitores como nasceu Quando navios partem?

Everson: Tudo começou quando o Cleber me disse: “Às vezes, eu sinto que estou desaparecendo”. E isso me impactou na hora. Senti um misto de tristeza e beleza. E quando a conversa amadureceu, tive a ideia de fazer uma história de alguém que quisesse desaparecer, mas no sentido literal e não no figurado, como costumamos dizer. E foi assim que eu fiz o convite para escrevermos juntos este livro, já que a frase veio dele.

Cleber: A ideia do livro surgiu de uma conversa que tivemos sobre desaparecimento. O tema da conversa foi o desaparecer movido por uma dificuldade de saúde, por uma dor. Aí o Everson disse: “isso parece assunto que pode ser lapidado para virar um livro” e propôs a empreitada. Eu aceitei.

Peirópolis: E como foi escrever este livro em parceria?

Everson: Quando o Cleber aceitou o desafio, e como ele mora no Rio de Janeiro e eu em Santa Catarina, lancei a ideia de escrevermos uma história de uma criança muito pequena, que acredita que é possível desaparecer. A partir daí cada um escreveria um texto da forma que quisesse. Combinamos que só mostraríamos nossa escrita depois que os dois tivessem criado algo e então, veríamos o que era possível fazer. Lembro que o Cleber fez isso muito rapidamente, o que me instigou a pensar e também escrever. Quando as duas histórias ficaram prontas, trocamos no mesmo dia e horário para que não houvesse influência na trama um do outro. E logo que eu li o que ele tinha escrito, percebi que as histórias tinham elementos muito interessantes que se conectavam. Foi então que eu juntei o meu texto ao dele. Peguei o que havia de melhor no meu e o melhor que havia no dele e assim nasceu a primeira versão de “Quando navios partem”, embora tenha passado por várias outras versões e títulos antes.

Cleber: Foi simples porque nos conhecemos bem. Ao mesmo tempo desafiador, justamente porque temos muita intimidade. Será que essa intimidade não atrapalharia o processo? Aí, descobrimos que não. Para mim também foi desafiador por ser novato na escrita de livros. Mas o texto foi surgindo aos poucos.

Peirópolis: O livro traz um tema pouco visto na literatura feita para as infâncias, embora diga respeito à realidade de muitas crianças. Como veem este lugar que a literatura pode ocupar como abertura para conversas sobre assuntos nem sempre fáceis?

Everson: A literatura consegue abordar assuntos difíceis sem necessariamente explicá-los ou oferecer respostas prontas. Ela pode criar imagens, silêncios e perguntas que ajudam a criança a reconhecer sentimentos que, muitas vezes, ainda não consegue nomear. Gosto de pensar no livro como espaço seguro de encontro: primeiro entre a criança e a história e, depois, entre as crianças e os adultos que a acompanham.

Cleber: A literatura pode ser um meio ou uma ferramenta de apoio para abordagens de temas mais densos, para adultos e crianças lidarem com realidades difíceis que fazem parte da vida humana. E isso não precisa ser feito de maneira simplista, de uma forma que subestime a inteligência dos leitores, que seja autoritária. Autoritária no sentido de impor um ponto de vista único e pronto e de não deixar margem para a cocriação do leitor.

Peirópolis: Certa vez, o escritor Bartolomeu Campos de Queirós disse que podemos falar de tudo às crianças, mas não de qualquer jeito. Há que se ter uma forma para dizer a elas… Como acham que essa afirmação dialoga com o livro?

Everson: Essa afirmação fala diretamente com o que eu acredito e com o que eu faço. Eu nunca me deparei com um tema que eu pensasse ser impossível de dialogar com as infâncias. O que eu penso é “como eu vou falar sobre isso? De que forma? Com que palavras? Qual vai ser a estrutura?”.

Cleber: Isso tem que ser feito. Um livro como “Quando navios partem”, com várias camadas de entendimento, materializadas por um texto e ilustrações que vão além do trivial, do óbvio, respeita o momento de cada criança e o horizonte que cada uma tem diante de si, dentro de si. É importante que, num tema espinhoso, tudo esteja disponível para a criança, sem subestimá-la, mas, ao mesmo tempo sem correr o risco de assustá-la, de causar um desconforto desnecessário para o qual ela não está preparada ainda. Sob essa perspectiva, dependendo da idade ou condição psicossocial da criança, a leitura de um livro como este precisa ser intermediada por um adulto capaz de entender o que o livro propõe e em que momento está a criança em sua formação.

Peirópolis: A presença das ilustrações é marcante para a construção de sentidos da narrativa. Como autores, de que forma as ilustrações impactaram a relação inicial com o texto? E quais camadas vocês observam que o Juão Vaz trouxe para a história?

Everson: Quando eu vi as ilustrações pela primeira vez, percebi que o Juão havia escolhido uma narrativa extremamente simbólica. Minha reação inicial foi de surpresa, talvez porque eu estivesse procurando nas imagens a história que eu já conhecia. Aos poucos, compreendi que ele não havia simplesmente ilustrado o que escrevemos: havia criado uma narrativa, paralela, cheia de pistas e sentidos próprios. Como a nossa parceria vem de outras obras juntos, e de muita confiança no trabalho um do outro, acho maravilhoso ser surpreendido.

Cleber: O Juão trouxe camadas adicionais de sensações para o texto, dialogando com ele de forma poética e precisa. As imagens deram um toque misterioso, abrindo portas para a possibilidade de algo existir além do horizonte textual.

Peirópolis: As metáforas, tanto visuais como textuais, e o final aberto constituem elementos importantes dessa história. Como vocês veem a contribuição desses elementos para a formação dos leitores?

Everson: Acredito que as metáforas ampliam o imaginário das infâncias porque não entregam ao leitor um único caminho. Elas convidam cada criança a embarcar na história levando consigo suas bagagens: medos, lembranças e também aquilo que ainda não sabe nomear. O final aberto reforça esse movimento. O livro termina, mas a trama pode continuar dentro de quem a leu.

Cleber: As metáforas e o final aberto possibilitam que o leitor seja coautor da história, dando margem para que ele use a sua imaginação e experiência para dar uma versão própria das cenas e do rumo das personagens. Isso é formativo porque estimula a criatividade de quem lê a história.

Saiba mais

Quando navios partem

Everson Bertucci e Cleber Zambarda
Ilustrações de Juão Vaz

ISBN 978-65-5931-521-5

ISBN versão digital: 978-65-5931-522-2 ePUB | 978-65-5931-523-9 KPF

Sinopse:

Todas as noites, uma menina convive com gritos, soluços e o silêncio que tomam conta de sua casa. Durante as manhãs, acompanha a mãe até o porto para observar os navios desaparecerem no horizonte. Enquanto a mãe acredita que a filha sonha com grandes embarcações, a menina alimenta um desejo que ninguém consegue enxergar. Com delicadeza e sensibilidade, Quando navios partem convida o leitor a refletir sobre os impactos da violência doméstica na infância e sobre aquilo que, muitas vezes, as crianças sentem, não conseguem expressar por meio da palavra.

Compartilhe