Meia hora para mudar minha vida – Impressão de leitura, por Joel Cardoso
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MEIA HORA PARA MUDAR A MINHA VIDA
Alice Vieira
São Paulo: Editora Peirópolis, 2014
Receber livros… existe presente melhor?
Amo as remessas que a Editora Peirópolis, através da delicadeza de Renata Farhat Borges, me envia.
São sempre livros belos, com o cuidado editorial que caracteriza o trabalho da Editora.
Brasil e Portugal são nações irmanadas pela herança da língua e, obviamente, por elos culturais fortes que, apesar da distância, do tempo, dos contratempos, persistem, resistem, insistem. Cada um dos dois países, como não poderia deixar de ser, apresentam especificidades que os distinguem, que ora se firmam ora se atenuam no transcorrer da história. A língua, no entanto, como bem sabemos, é viva… acompanhando a dinâmica dos falantes, está em constante mutação. A prosa portuguesa da contemporaneidade, neste sentido, é saborosíssima e rica quanto às entonações que, ao apresentar os temas que lhe são caros, incorporam e traduzem…
Temos em terras lusitanas nomes relevantes que atestam, singularmente, o dinamismo, a elasticidade e lirismo desse nosso sonoro e poético idioma.
Entre os autores da nova safra da prosa portuguesa, o nome de Alice Vieira merece destaque. A escritora é uma das personalidades literárias mais significativas do nosso tempo e apresenta uma trajetória artístico-literária que merece ser mais divulgada e conhecida nestas nossas plagas brasileiras. Com dezenas de obras publicadas, a autora, uma voz atuante no mundo editorial desde a década de 70 do século passado, já foi traduzida para diversos idiomas.
A menina Branca protagoniza a história “Meia hora para mudar a minha vida”. Ela nasce e vive num conturbado e divertido ambiente teatral. Entre os textos das peças de Gil Vicente, a garota vai tomando pé na e da existência. As pessoas, no mundo de Alice, tinham nomes de batismo e tinham, também, nomes artísticos. Às vezes, os nomes artísticos se tornavam mais corriqueiros, mais presentes, mais funcionais que os recebidos na pia batismal.
Brasil e Portugal, o presente e o passado, o tradicional e o moderno, teatro e música, entonações de cá e de lá, prosa e poesia, tudo dialoga criativa e harmoniosamente na obra. Os diálogos intertextuais, quiçá a mais relevante característica da arte dos nossos dias, são, na obra, muitos e ricos.
Um pormenor: um dos versos da canção “Vambora”, da gaúcha Adriana Calcanhotto, versos transcritos a seguir, nomeia a obra.
Entre por essa porta agora
E diga que me adora
Você tem meia hora
Pra mudar a minha vida
Vem, vambora
Que o que você demora
É o que o tempo leva
Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda tem você na sala
Por que meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
“Dentro da noite veloz”
Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
“Na cinza das horas”
Obrigado, aliás, obrigadíssimo à Renata Farhat Borges, à Maria Conceição Azevedo, à Susana Ventura (que – lindamente – faz a apresentação do livro e que, também, me apresentou à Editora Peirópolis), Alice Vieira (que acabo de incluir no meu rol de amigos seletos)…