Cadê o rio que estava aqui? Entrevista com os autores
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Ilustração do livro Cadê o rio que estava aqui?, de Leo Cunha e Paulo Rea, feita em marchetaria
Entrevista com Leo Cunha, autor de Cadê o rio que estava aqui?:
Peirópolis: Leo, conta sobre a ideia deste livro e de sua relação com este tema.
Leo Cunha: Em 2023 eu fui ao bairro Ipiranga, em São Paulo, e soube que o famoso rio, citado no hino nacional, tinha sido canalizado. Como assim: não existem mais as “margens do Ipiranga”? Ao comentar o fato com meu amigo, Paulo Rea, descobri que ele tem um mapa de São Paulo em que vai colorindo de azul as ruas e avenidas que passam onde antigamente eram rios a céu aberto. Veio daí a ideia do livro Cadê o rio que estava aqui? – uma história sobre aquilo que não vemos, mas que está presente em nossa vida e na vida das grandes cidades. A cidade onde moro desde que nasci, Belo Horizonte, também canalizou quase todos os seus rios, e isso sempre me incomodou, pois acho lindos os rios, suas margens, as pontes que os cobrem. Infelizmente, a gente caminha todos os dias sobre essas águas ocultas sem perceber. Achei que essa era uma metáfora poderosa para falar sobre a relação entre natureza e urbanização, sobre o que apagamos do nosso passado e como isso ainda ressoa no presente.
P: Recentemente, as discussões em torno da forma como a população das grandes cidades as habitam têm aumentado, questionando sua viabilidade. Eventos climáticos cada vez mais comuns também problematizam os efeitos desta ocupação. De que forma você acredita que o livro Cadê o rio que estava aqui? pode contribuir para essa discussão?
LC: A literatura pode falar de temas delicados sem o tom informativo, didático ou panfletário. Sua intenção não é ensinar ou passar lições de moral, mas sensibilizar o leitor para determinados fatos, assuntos ou mesmo problemas. Sem a obrigação de esgotar o tema nem de apontar soluções. Neste sentido, Cadê o rio que estava aqui? pode ajudar a despertar o olhar das crianças – e dos adultos também – para essas questões. Quando soterramos um rio, ele não desaparece, ele continua lá, subterrâneo, procurando vazão, interferindo na cidade de maneiras que nem sempre percebemos. As enchentes, por exemplo, são um reflexo direto dessa ocupação desordenada. O livro convida o leitor a pensar: e se esse rio voltasse a correr? E se parássemos para ouvir o que ele tem a dizer? Minha intenção é provocar a curiosidade e a reflexão sobre como interagimos com o espaço urbano e a natureza.
P: Fale um pouco sobre a sua parceria com o Paulo Rea e do efeito que você imagina que o trabalho dele com a marchetaria pode ter neste livro.
LC: A parceria com o Paulo é essencial neste livro, pois, como citei acima, a própria ideia para o livro, o estopim, nasceu de algo que ele me contou. Eu já tinha um livro em parceria com o Paulo – A chama e o corte, que fala poeticamente sobre a destruição das florestas e o impacto disso nas pessoas e nos bichos. A marchetaria – técnica de ilustração usada pelo Paulo – trabalha com camadas de madeira, revelando texturas e histórias ocultas na superfície. Isso dialoga perfeitamente com a ideia de rios escondidos sob as cidades. Além disso, a madeira é um material vivo, orgânico, e traz para o livro essa sensação de contato direto com a natureza. Fiquei encantado com o resultado, porque as ilustrações não apenas complementam o texto, mas também ampliam a experiência sensorial do leitor.
P: Você tem escrito muito sobre os impactos da relação de dominação que os homens estabelecem com a natureza. Como vê essa relação da literatura como veículo para trazer questões que dizem respeito ao meio ambiente?
LC: A literatura tem o poder de humanizar animais e objetos. Neste livro, por exemplo, o leitor pode entender o rio, a paisagem, a natureza como seres vivos, que sofrem com as interferências do homem. Isso gera empatia, identificação e sensibilização no leitor. Diferentemente de uma notícia, um artigo ou um relatório técnico, o texto literário pode tocar o leitor de uma forma subjetiva, emocional. Eu acredito que, ao contar histórias que mostram essa relação de conflito entre homem e natureza, conseguimos plantar sementes de consciência ambiental. Mas é importante que isso seja feito de maneira natural, sem ser panfletário. O leitor precisa se conectar com a história, com os personagens, com as imagens. E aí, dentro dessa experiência estética, ele vai absorvendo as mensagens e criando seu próprio olhar crítico sobre o tema.
P: O livro tem um tom poético e um ritmo que pode lembrar o fluxo da água. Como foi o processo de escrita para chegar a esse resultado?
LC: Eu construí o texto todo em versos de 7 sílabas poéticas, que chamamos de “redondilha maior”. É a forma mais popular do texto poético em língua portuguesa, e tem sido amplamente usado desde Camões, passando pelas trovas, pelos cordéis, pelas parlendas etc. Eu queria que o texto tivesse um movimento constante, como um rio fluindo, ora calmo, ora intenso. Brinquei com a sonoridade das palavras, com repetições, com pausas que fazem o leitor mergulhar na cadência da leitura. Além disso, quis trazer essa sensação de descoberta – de ir desvendando, aos poucos, os mistérios dos rios subterrâneos. Para isso, o texto precisava ter um tom mais sensorial do que explicativo.
P: Como você espera que os leitores, tanto as crianças quanto os adultos, se conectem com Cadê o rio que estava aqui?
LC: O texto, as imagens, e o diálogo entre os dois permitem leituras e interpretações variadas. Cada leitor vai entender e sentir o livro de uma forma, dependendo de sua relação com os rios, com as cidades, com a poesia, com as artes visuais. Algumas crianças podem se encantar com a ideia dos rios escondidos e querer saber mais sobre eles. Outras podem se conectar com a poesia do texto, com a beleza das ilustrações do Paulo. Espero que cada leitor tenha sua própria descoberta. Também gosto da possibilidade de que pais, professores e leitores mais velhos enxerguem no livro um convite para refletir sobre o impacto da urbanização na natureza. Se, depois da leitura, alguém olhar para sua cidade de um jeito diferente, com mais curiosidade e atenção ao que está escondido, já terá valido a pena.
P: Por fim, qual foi o maior aprendizado para você ao escrever Cadê o rio que estava aqui?
LC: Depois que me ocorreu a ideia do livro, fui pesquisar sobre rios canalizados e escondidos em São Paulo, no Rio de Janeiro e na minha própria cidade, Belo Horizonte. Entendi com mais clareza o processo de urbanização, mas também se reforçou, em mim, a percepção de como a natureza resiste, mesmo quando tentamos apagá-la. Os rios soterrados continuam ali, silenciosos, mas vivos. O livro me fez refletir sobre o que significa conviver com essas forças da natureza em um espaço urbano. Escrever essa história foi um processo de escuta – escuta dos rios, do passado das cidades, e até mesmo do silêncio que se faz necessário para perceber aquilo que está escondido. Espero que os leitores também façam essa escuta.
Entrevista com Paulo Rea, artista de marchetaria, sobre o processo criativo de ilustrar com essa técnica no livro Cadê o rio que estava aqui?:
Peirópolis: Paulo, você utiliza a marchetaria para criar as ilustrações do livro Cadê o rio estava aqui? Como surgiu a ideia de usar essa técnica em um projeto literário voltado para as infâncias?
Paulo Rea: Trabalho com esta técnica há muito tempo e desde o começo do projeto ela dialogou com o Cadê o rio que estava aqui? O livro fala sobre rios escondidos, soterrados pelo asfalto das grandes cidades e a marchetaria é, de certo modo, uma técnica que revela o oculto das árvores, pois utiliza lâminas de madeira que também estão escondidas no interior de seus troncos.
Cadê o rio que estava aqui? fala da ação do homem interferindo negativamente no meio ambiente. Apresentar ao público jovem uma técnica visual que mostra ser possível usar a madeira de forma consciente e responsável é um contraponto muito interessante. Comprar material em casas idôneas, utilizar lâmina com apenas 2 mm de espessura e aproveitá-las ao máximo, reutilizar madeiras antigas são alguns cuidados que tomo neste sentido.
P: Quais foram os maiores desafios de adaptar a marchetaria para a ilustração de um livro, especialmente em um formato voltado para crianças e jovens?
PR: A madeira não tem cores vibrantes, que chamem e prendam a atenção do leitor em um primeiro momento. Ela é sutil nas diferenças de tonalidades, texturas, veios. Tem que ser observada com um olhar meticuloso. Então escolher madeiras que fossem atraentes para os leitores jovens foi, sem dúvida, o maior desafio.
A marchetaria é uma técnica que exige precisão e detalhes minuciosos, por isso demanda muito planejamento prévio, já que cada etapa do processo precisa ser cuidadosamente pensada. Dentro desse planejamento, encontrar o equilíbrio entre a riqueza de detalhes e a clareza visual também foi desafiador.
P: Como você enxerga a relação entre a técnica da marchetaria e a história que está sendo contada em Cadê o rio que estava aqui?
PR: A marchetaria me permite trabalhar com camadas de significado, assim como a história fala de camadas da cidade, com os rios correndo ocultos sob o concreto. As lâminas de madeira, cortadas e montadas para formar as imagens, remetem diretamente a essa sensação de que há mais do que aquilo que vemos à primeira vista, pois na marchetaria uma superfície de cor nunca é plana, homogênea, rápida. Tem que olhar com cuidado para perceber as nuances de tons, texturas, desenhos dos veios. É preciso parar e silenciar para descobrir. Nesse sentido, tem tudo a ver com o nosso “Sobre Rios”. Quando andamos apressadamente pela cidade barulhenta não percebemos que sob os nossos pés existem rios. E para encontrá-los precisamos parar e silenciar.
P: Este livro traz uma importante mudança relacionada à técnica. Poderia falar a respeito?
PR: Por sugestão da editora as ilustrações não tiveram o processo de acabamento que normalmente faço. Foi uma proposta ousada que tinha como propósito deixar as texturas das madeiras e o relevo da marchetaria em maior evidência. Dessa forma minha intervenção (ação humana) foi reduzida ao estritamente necessário para a finalização do trabalho. Ou seja, imagem e execução estão em perfeita sintonia com o que trata o livro.
P: Como foi o processo de colaboração com o autor Leo Cunha para garantir que suas ilustrações estivessem alinhadas com o texto?
PR: Leo Cunha tem uma sensibilidade muito apurada e me deu bastante liberdade criativa, o que foi ótimo. Desde o início, discutimos a importância de criar imagens que complementassem o texto sem apenas ilustrá-lo de um jeito literal. Ele queria que a marchetaria ajudasse a contar a história de forma sensorial, fazendo com que os leitores sentissem a presença desses rios subterrâneos não apenas pelo texto, mas também pelas imagens. Isso me motivou a explorar texturas e formas que evocassem o movimento da água e a quietude desses rios escondidos.
P: Como você espera que as crianças e os jovens leitores interajam com as suas ilustrações? Qual é o impacto que você quer causar?
PR: Eu espero que eles se surpreendam, que sintam curiosidade pela história dos rios, pela técnica de marchetaria e pelas madeiras utilizadas. As ilustrações foram pensadas para despertar o olhar e provocar a imaginação. A ideia é que cada página seja uma pequena descoberta, assim como os rios do livro. Talvez alguns leitores queiram saber mais sobre essa técnica artesanal, ou simplesmente apreciem as texturas e as cores das madeiras. Acima de tudo, espero que as ilustrações ajudem a contar essa história de uma maneira que seja visualmente cativante e que permaneça na memória deles.
P: A marchetaria é uma técnica artesanal e relativamente rara nos dias de hoje. Como você vê o papel dela para a ilustração e as artes visuais?
PR: Acredito que, justamente por ser rara e artesanal, a marchetaria tem um papel especial nas artes visuais. Com tantas criações digitais, técnicas manuais como esta ganham um valor diferente, pois falam de paciência, atenção, cuidado, delicadeza. Muito diferente desse mundo tecnológico em que vivemos. Eu vejo a marchetaria como uma forma de trazer algo tangível e único para as ilustrações, algo que não pode ser replicado exatamente da mesma forma. Espero que, ao verem essas imagens, as pessoas reflitam sobre a importância do artesanal e como ele pode dialogar com as narrativas contemporâneas, inclusive as voltadas para o público mais jovem.
Outra questão muito importante é poder levar a beleza das madeiras para perto das pessoas. Ao se interessarem por elas, os leitores podem conhecer e valorizar as árvores que as fornecem, o papel que cada uma ocupa na natureza e, principalmente, a importância de preservá-las.