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Creches e escolas nas práticas cotidianas – Entrevista com Cisele Ortiz e Maria Teresa V. de Carvalho

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Cisele Ortiz

Peirópolis: O livro nasce de muitos anos de trabalho de vocês na formação de educadoras de bebês e crianças bem pequenas e, sobretudo, do diálogo com essas profissionais. Por que a conversa é uma dimensão tão importante da formação? O que ela torna possível quando consideramos as singularidades de cada instituição e de cada educadora?

A conversa com as educadoras é importante para que elas sejam reconhecidas e verdadeiramente ouvidas. Isso contribui para que tenham acesso às delicadezas do trabalho que realizam, infelizmente ainda pouco ou nada reconhecido aos olhos de boa parte da sociedade. Para além da aprendizagem e da saúde, é preciso considerar também a dimensão relacional como parte da formação do bebê e da criança, assim como a dimensão do desenvolvimento e da formação psíquica nessa faixa etária.

É preciso cuidar da relação adulto-criança, pois ela participa do processo de constituição dos bebês e das crianças: envolve a construção de vínculos afetivos, a atenção contínua, a escuta e a observação, além de interações adequadas ao desenvolvimento.

Quando consideramos as singularidades de cada instituição e de cada educadora, partimos da ideia de que cada relação é singular e se constrói em um contexto específico de espaço e tempo, com seus recursos, projeto, equipe, participação das famílias e características próprias dos territórios onde estão inseridas.

Peirópolis: A relação entre creche e família ocupa um lugar importante no livro. Quais são hoje os principais desafios para construir uma parceria de confiança entre essas duas instâncias de cuidado? E que condições precisam existir para que esse vínculo se fortaleça?

Em primeiro lugar, é preciso ter claro que o bebê e a criança pequena não chegam sozinhos à creche ou à escola: são trazidos por algum membro da família, que responde por eles. Essa família traz a história da criança, quem ela é, suas características, suas condições de saúde, as experiências que viveu até aquele momento e o ambiente ao qual pertence. A instituição passa a fazer parte dessa história, e novas experiências serão vividas em um espaço marcado pela convivência coletiva. Por isso, esse tema apareceu como relevante no livro.

Nos tempos atuais, as famílias são múltiplas e muitas vezes ampliadas. Há também crianças que convivem com adultos em outros contextos, como o acolhimento institucional, e que têm direito à educação e responsáveis por elas. Sejam pais, avós, irmãos ou orientadores, há sempre um responsável implicado com o desenvolvimento dos bebês e das crianças.

Um dos principais desafios nessa jornada é mostrar a importância de cada um: família e instituição. Ambos são importantes para a criança, e cada um tem o seu papel. Por isso, orientamos que se evite uma competição entre eles, o que muitas vezes acontece. É desafiador lidar com as diferenças entre as famílias sem desconsiderar que cada uma tem seus valores, sua cultura e seus hábitos. Ao chegar à instituição, a criança passa a vivenciar um espaço coletivo, no qual não é única: precisa respeitar regras e protocolos, conhecer e conviver com outras crianças, de famílias que também têm os mesmos direitos.

Para que esse vínculo se fortaleça, é fundamental que existam diferentes espaços e situações de diálogo, troca de conhecimentos e convivência também entre as famílias. A família precisa ser escutada em suas especificidades e em sua realidade, assim como precisa conhecer o trabalho e os princípios da instituição. É importante garantir tempo para conversar com a educadora, contar e saber como foi o dia da criança, participar de reuniões, festas e eventos culturais. As famílias também podem aprender umas com as outras diferentes formas de exercer a parentalidade.

Peirópolis: Vocês reservam um bom espaço à sexualidade infantil, um tema que ainda provoca desconforto, mesmo quando falamos de bebês e crianças bem pequenas. O que vocês têm observado na prática? Por que esse assunto ainda é tão difícil de abordar na formação das educadoras?

A sexualidade infantil faz parte do processo de conhecimento do corpo, de seu desenvolvimento, de suas reações e das experiências que a criança vivencia com esse corpo na relação com o adulto. Afinal, o cuidado com os bebês e as crianças pequenas passa primordialmente pelo corpo. É preciso construir uma intimidade respeitosa e atenta às características de cada criança.

Temos observado que os adultos olham para o comportamento das crianças a partir de suas próprias experiências de adultos. Há uma confusão entre sexualidade e sexo. Quando a criança expressa sua curiosidade experimentando as sensações do próprio corpo, tocando o outro ou mexendo no corpo do adulto, a primeira interpretação muitas vezes é a de que se trata de sexo, como se ela estivesse se dirigindo a isso. Também observamos que há pouco conhecimento sobre o que está acontecendo com a criança e, assim, aquilo que se refere ao corpo e à sua intimidade acaba gerando vergonha, constrangimento ou esbarrando em questões morais e tabus.

O assunto é difícil de abordar nas formações não porque seja novo, mas porque quase nunca se fala sobre ele. Há tabu, vergonha e constrangimento. Porém, em nossa experiência, quando o tema é tratado com tempo, considerando o conhecimento prévio de cada educadora, as experiências que estão vivendo no dia a dia com as crianças e exemplos já vivenciados nas instituições, e, principalmente, quando há uma escuta respeitosa de cada participante do grupo, a formação flui de uma boa maneira. As dúvidas, os preconceitos e as dificuldades passam a circular no grupo e vão se transformando em um conhecimento compartilhado.

Peirópolis: Ao longo do livro, vocês recorrem à psicanálise, à psicologia do desenvolvimento, à educação, à literatura infantil e à antropologia para compreender o bebê.

Maria Teresa Venceslau de Carvalho

Por que é importante que as educadoras construam esse olhar a partir de diferentes perspectivas? O que essa abordagem amplia na prática cotidiana?

Considerar diferentes campos de conhecimento para compreender a criança é reconhecer a complexidade e a responsabilidade desse trabalho. Por se tratar de uma etapa fundamental do desenvolvimento humano, a primeira infância, dos 0 aos 6 anos, exige que olhemos para as diferentes dimensões que compõem a formação de um bebê e de uma criança pequena: o psiquismo, o corpo, o contexto social e cultural, assim como os novos conhecimentos e recursos que surgem a todo momento.

A pedagogia sozinha não dá conta de compreender a complexidade do ser humano, principalmente nessa faixa etária, considerando que a creche, sobretudo, não faz parte dos conhecimentos iniciais da formação de muitas educadoras. Além disso, ao entrar em contato com a grandeza do desenvolvimento humano em todas essas dimensões, elas também começam a olhar e a rever a si mesmas e a responsabilidade de sua escolha profissional.

Peirópolis: Como vocês avaliam o lugar que as creches ocupam hoje na educação brasileira? Quais avanços consideram mais significativos e quais continuam sendo os

grandes desafios no campo das políticas públicas para a primeira infância?

O lugar das creches ainda não é valorizado como deveria e, em alguns municípios brasileiros, elas ainda nem existem. Houve um avanço muito grande nas políticas públicas relacionadas à educação infantil desde a Constituição Cidadã de 1988, que determinou que a educação é direito da criança desde o nascimento. Depois, a LDB deu caráter educativo à creche, para as crianças de 0 a 3 anos, e o Marco Legal da Primeira Infância tratou dos direitos de todas as crianças pequenas, sem exceção, trazendo também a ideia de diversidade e multiculturalidade das infâncias brasileiras.

As creches, por serem de responsabilidade dos municípios e terem matrícula não obrigatória para as famílias, nunca receberam a atenção necessária. Durante muito tempo, também não houve consensos suficientes sobre o que é a creche, como organizá-la e como atender à demanda. Há grande diversidade no Brasil quanto aos tipos de atendimento e às formas como ele é oferecido.

A atuação do Ministério Público, que passou a judicializar a falta de vagas, favoreceu um grande movimento de ampliação dos equipamentos de creche e de formação das educadoras para atender à demanda reprimida. Mas, infelizmente, ainda se conhece pouco sobre as crianças e suas famílias para atendê-las como precisam e merecem. Muitas vezes, pensa-se no preenchimento de vagas e no número de crianças, e não na qualidade do atendimento.

Com a resolução do CNE/CEB de 2024, finalmente podemos dizer que temos parâmetros nacionais de qualidade e equidade para a educação infantil, obrigatórios em todo o território nacional.

As creches também fazem parte da rede de apoio às famílias, principalmente às mais vulneráveis. Contar com um lugar que oferece aos bebês e às crianças bem pequenas aquilo de que precisam: um espaço seguro para crescer e se desenvolver, que complemente a educação familiar com segurança, afeto, atenção, cuidado, alimentação saudável e brincadeiras, trazendo bem-estar para famílias que, muitas vezes, não teriam como promover tudo isso em suas casas.

Enfim, avançamos muito e hoje temos mais poder e consciência para atender às demandas por creches com qualidade e equidade.

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Creches e escolas nas práticas cotidianas

Cisele Ortiz e Maria Teresa Venceslau de Carvalho

ISBN 978-65-5931-502-4

ISBN versão digital: 978-65-5931-503-1

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Sinopse:

A partir da observação atenta de professoras, gestoras e demais profissionais da creche e da escola, as autoras – psicólogas e educadoras com ampla experiência na formação em educação infantil – constroem um diálogo que recusa respostas prontas e busca sustentar uma aproximação sensível da primeira infância.

Articulando psicologia, psicanálise e outros campos do conhecimento, a obra convida a compreender o “ser bebê” como experiência singular, que exige presença qualificada, escuta e formação contínua dos adultos que cuidam.

Ao percorrer temas como as relações no cotidiano institucional, as linguagens infantis, o corpo, os conflitos e os vínculos com as famílias, o livro entrelaça teoria e prática para ampliar o olhar sobre os primeiros anos de vida.

Mais do que apresentar soluções, oferece companhia: uma conversa que se prolonga, acolhe dúvidas e sustenta o pen- samento, reafirmando a formação como processo vivo, tecido no encontro, na escuta e na disposição de seguir aprendendo com os bebês e com os que cuidam deles todos os dias.

O livro é o quarto volume da Coleção Chão de Escola, que reúne títulos que partem da experiência viva de educadores e educadoras, e que dão lugar às vozes, gestos e inscrições das crianças e dos estudantes em seus processos de aprendizagem, registrando práticas transformadoras que se constroem no cotidiano escolar.

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