Prefácio – Orixás: Ikú
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Por Zé Modesto
Nossa alma brasileira respira as tradições de um povo que chegou escravizado nessas terras e, generosamente, nos ofereceu muito mais que cérebros e braços cativos. Os milhões de negras e negros africanos, aqui aportados, nos revelaram suas tradições ancestrais, que poderemos reviver, em algumas de suas histórias, nessa linda coleção sobre os Orixás que a Editora Peirópolis, felizmente, reedita.
Adaptar contos da mitologia yorubá para a linguagem da nona arte tem sido uma das principais contribuições do exímio roteirista Alex Mir ao universo dos quadrinhos, sempre muitíssimo bem acompanhado por ótimos desenhistas e arte finalistas, como é o caso dos artistas que trabalham nesse álbum.
O tema da morte, muito recorrente na tradição mitológica do mundo inteiro, será, neste volume, a principal iguaria que nos alimentará em nossas reflexões sobre a vida. Nosso protagonista, Ikú, é o Caronte africano, aquele que, notificado sobre os humanos que já realizaram suas missões aqui no Ayê (o mundo físico), os recolhe e os reconduz a Olorum, a divindade suprema.
Nós, seres humanos, moldados no barro das águas profundas de Nanã e tornados viventes pelo sopro criador de Oxalá, muitas vezes, nos confundimos, nos assoberbamos e nos esquecemos que somos pequenos, infinitamente insignificantes diante do arrobo maior que é a natureza, aqui vivificada, em cada um dos seus elementos, no protagonismo dos Orixás. Sim, para os yorubás, nós humanos somos apenas algo passageiro no Ayê: “da lama viemos e a ela retornaremos”, nos braços de Ikú, o emissário da morte.
Mas seriam somente os seres humanos, reconhecidamente falíveis, os que se perdem nessa mistura de papéis na vida? Aqui já lembramos um dos encantos da mitologia yorubá: os orixás têm muitas virtudes e poderes, mas são seres incompletos, recheados de imperfeições, como a gente.
Nesse livro, Ikú, divindade imortal, será posto a prova nos limites de suas atribuições e resvalará na experiência finita da vida humana. Nosso herói da morte será impelido, inclusive, a sentimentos que, para nós humanos, já são muito perigosos, quem dirá a esse ser sobrenatural, com essa função tão insólita e intransferivelmente destinada.
Cabem à morte afetos e desafetos? O que pode vir a ser a tal da morte, além dela própria, a morte? Quais devem ser os verdadeiros propósitos de Ikú, além de recolher os humanos, na cinza de suas horas? Essas e outras tantas indagações desfilarão em nossas mentes na leitura dessa rica narrativa yorubá.
Entremeando essa trama dos dilemas de Ikú, ainda teremos duas divertidas histórias, envolvendo os chamados ibejis ibicus, seres muitíssimo interessantes que darão um tempero especial à saga do nosso protagonista.
Então, seres mortais, se estão vivos, divirtam-se!