O menino poeta – Impressão de leitura, por Joel Cardoso
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O MENINO POETA – HENRIQUETA LISBOA
2ª ed. São Paulo: Peirópolis, 2019. Ilustrações de Nelson Cruz.
Fiquei algum tempo sem receber os livros da Editora Peirópolis…
Por ter me acostumado a eles, sentia falta deles… com o que é bom a gente se acostuma facilmente…
Eis que, “de repente, não mais que de repente”, depois de um bom intervalo, para minha alegria, recebo novamente duas publicações da Editora, uma gentileza de pessoas queridas que incentivam a leitura, a poesia, a beleza em nosso país tão carente disso tudo…
Acho a poesia absolutamente necessária… Mesmo quando leio prosa, na realidade, estou a procura, ainda e sempre, da poesia… é a presença do poético que tece (que compõe, que diferencia) o literário… sem ela, a magia do poético, não há literatura: a linguagem se torna a banalidade comunicativa cotidiana…
Há, naturalmente, livros e livros… Alguns nos chegam e encontra eco em nossa sensibilidade… Como especificar essa ressonância que alguns textos causam em nosso interior?… mistério, mistérios…
O que é a nossa vida?… onde começa, onde termina e onde situamos a infância?… mais que isso, o que é, na realidade, a infância…
Se tivemos (e todos tivemos, cada qual de conformidade com a sua maneira de ser e estar no mundo) uma infância, ela perdura e floresce ao longo da vida, para se revitalizar (às vezes meio de esguelha) na idade adulta e retornar em sua plenitude na velhice (Drummond que o diga)…
Trago em mim infâncias… algumas escorregadias (embaçadas pela distancia temporal), outras mais perenes, outras ainda vivas e pulsantes… elas brincam uma com as outras… ah!, esse menino, poeta travesso, que ficou em mim retorna sempre, aqui e ali, e quando me dou conta, estou brincando novamente com ele, me confundo ele, volto a ser ele… será assim com todo mundo?…
É assim o livro de Henriqueta Lisboa, “O menino poeta”, editado, agora, já em segunda edição (2019), pela Editora Peirópolis (de São Paulo).
Um dos encantos do livro são certamente as ilustrações… As ilustrações formam um texto paralelo, dialogam com o contexto poético, imprimem imagens ao que, de per si, já era imagético… Que lindas as ilustrações de Nelson Cruz!… Poderosas e sugestivas ilustrações!… Criativas, se contrapõem ao texto literário, permitindo, por vezes associações, por vezes voos para outras viagens, para outras plagas, outras paragens… Algumas ilustrações são geniais: a que ilustra o poema “Charanga” seria, apenas para citar, um dos muitos exemplos… ilustrar é – no domínio preciso do traçado – criar junto; propor novos textos a partir de…
Fico me perguntando o porquê desse esquecimento do nome de Henriqueta Lisboa quando, na academia, falamos de poesia brasileira… Eu mesmo, confesso, incorro nessa omissão… Mas vou me redimir, prometo… Falamos de Cecília, de Adélia, Ana Cristina, Roseana, Clarice… e cadê Henriqueta? Por que não Henriqueta? A academia elege cânones e fica presa a eles… é preciso romper, inovar, oxigenar…
Ao seu modo, com uma técnica e uma leveza toda sua, simples e ao mesmo complexa (como é, aliás, avida), Henriqueta se universaliza ao transitar pelo seu personalíssimo contexto regional… um contexto todo dela e, ao mesmo tempo, de todos nós… Os temas mais variados e mais corriqueiros entram de forma simples, natural no seu universo poético… Mas, ao trazê-los, ao poetizá-lo eles já são outros, tão dela, tão nossos… O mundo (com seus “Pirilampos”, suas borboletas, seus dias, suas noites), a terra (”Pomar”), o tempo (“O tempo é um fio”) o ar, a natureza (“Várzea”, “Ronda das estrelas”), o vento (“Os quatro ventos”, belíssima a ilustração desse poema!, “Tempestade”), os rios (“Os rios”, a imagem do sono associada a um rio em “Sono”), as brincadeiras infantis (“O menino de velocípede”, “Divertimento”, “Cavalinho de pau”), a família (“Mamãezinha”, “Titia”), suas lendas (“Cabolos d-´água”, “Floripa”), religiosidade (“Coroação”, “O anjo bom”). Que linda, por exemplo, em “Copo de leite”, a imagem da lua associada à metáfora do leite, que me trouxe à lembrança um outro poema “Lua cheia”: “Boião de leite / que a noite leva / com mãos de treva, /pra não sei quem beber. E que, embora levado / muito devagarinho/vai derramando pingos brancos / pelo caminho.” (Cassiano Ricardo. Poesias completas. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1957)
Coisas de criança, coisas que – em sendo de criança – já não são mais de criança, uma vez que permanecem tão presentes, tão latentes em nós…
“Fazer pecado é feio.
Não quero fazer pecado, juro.
Mas seu eu quiser, eu faço. (Consciência)
Ora, ora, ora… não é bem assim?… coisa de menino teimoso… birra de todos nós…
Poderia continuar falando muito mais do encantamento que os versos de Henriqueta Lisboa provocaram (provocam) em mim… e há tanto a dizer, tanto a mostrar, tanto a comentar… porque poesia (como a vida) é assim: de repente, a gente presta atenção no pormenor, na sutileza do dizer, na novidade da imagem, na particularidade que, se não atentarmos bem, passa despercebida…
Quero, de coração, agradecer a Renata Farhat Borges (que de forma sucinta tece, nas orelhas do livro considerações sobra a autora e sua obra), Maria Conceição Azevedo (sempre tão gentil); e, como sempre, agradecer a Susana Ventura (que me apresentou à editora). Com a minha gratidão, meu afeto, meu respeito, o meu MUITO, MUITO OBRIGADO!