A cadeira do rei – Impressão de Leitura, por Joel Cardoso
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A CADEIRA DO REI – Nelson Cruz
São Paulo: Peirópolis, 2020. 64 p.
“A prática de pensar a prática é a melhor maneira de aprender a pensar certo. O pensamento que ilumina a prática é por ela iluminado tal como a prática ilumina o pensamento e per ela é iluminado.” Paulo Freire
A História humana regista múltiplas formas de ser e estar no mundo, seu bem, sua evolução, aquilo a que convencionamos chamar de progresso, mas, ao mesmo tempo, acaba expondo também o seu oposto, ou seja, a destruição, a barbárie, as catástrofes, o aniquilamento, e, no fim, o esquecimento. Sempre estamos na iminência de alguma modalidade de fim, ameaça que, insistente, ampla, inevitável e plural, paira permanentemente sobre nós. Como registramos (ou registrarmos) a História?… De que História falamos?… Quais os modos que usamos para abordá-la?… Com quais discursos a caracterizamos?… Com que palavras, quais meios, com quais gestos, e que possíveis sentidos atribuímos aos discursos para que possamos (re-apresentando-a) repensar a História? Como podem as palavras e, com elas, as artes em geral, aventarem modelos minimamente plausíveis e aceitáveis para revisitar os fatos, as memórias? De que nos serve a História?… E a nossa História nacional, qual a sua feição?… A nossa pobre História, como se configura?… De que trata?… O que retrata?… Como evolui?… tantas as perguntas, poucas as respostas… só o fato, no entanto, de questionarmos, já é um processo reflexivo que nos convém… ajuda-nos a pensar para nos situarmos na atual conjuntura…
Se, como diz o poeta, de tudo fica um pouco, antes de sermos seres do presente, do aqui e do agora, somos seres que portamos as vestes do passado. O passado nos constitui, nos forma, nos conforma e, se tivemos sorte e alguma sensibilidade (e coragem), nos transforma. O presente se sedimenta, se estrutura, se apresenta através das malhas urdidas por esse tecido temporal do já vivenciado, do já experimentado e experienciado. Somos a somatória de todos os saberes adquiridos e incorporados (consciente, inconscientemente) ao longo da nossa trajetória existencial. Somos o que assimilamos, o que interpretamos da História (oficial, oficiosa), o que guardamos de estórias (populares, folclóricas etc.), o que ouvimos de causos (familiares, sociais), aquilo que vivenciamos de casos (reais, fictícios, imaginários), discursos os mais variados (religiosos, éticos, morais, políticos etc.).
Não há como fugir à História. É ela que nos caracteriza como cultura, como povo, como nação, como sociedade, como discursos (e nós somos seres do discurso…)… À História, recentemente, incorporaram-se outras vozes, a das minorias, até então silenciadas, que puseram em cheque os velhos discursos oficiais. A partir daí, as práticas culturais, educativas, sociais impuseram novos rumos à leitura, apreensão e interpretação do passado. Interessante observar que a História, que se quer verdadeira (uma vez que se apoia em fontes documentais), ao se transformar em discurso pelos historiadores, discurso que não raro reivindica um status literário, não se diferencia – para a recepção – do discurso ficcional. Firma-se, aí, intuitiva e quase que automaticamente, um pacto, um acordo tácito entre conteúdo e forma, instante em que a forma de contar, aquilo que normalmente denominamos por estilo, assume tanta importância (beleza, impacto, inovação etc.) quanto aquilo que é narrado. Processo incontestável, estamos à mercê do abrangente poder do discurso, ferramenta que pode mudar a nossa percepção, interferindo na forma como vemos, como apreendemos, como sentimos a realidade e este mundo que nos cerca.
Há ‘n’ maneiras de narrar fatos. Das estratégias de como as narrativas se viabilizam, se mostram, se expõem, surge o nosso interesse como leitores. Tudo isso advém como mero pretexto introdutório (completamente desnecessário, é verdade!) para falarmos do livro “A cadeira do rei”, de Nelson Cruz. Que delícia revisitar a História, a partir de um mote específico, para, artística e ludicamente, revisitar uma faceta da nossa História!… Revisitamos, em verbetes, portanto, de forma sucinta, a trajetória dos nossos governantes a partir de uma ótica (um mote) especial, uma ótica que, ao desmistifica-los, quebra possíveis distanciamentos em relação aos detentores do poder e, unindo palavra e imagem, os aproxima de nós, pobres mortais. Aqui e ali, com os fatos, traços pessoais das personagens são pontuados de forma mais contundente.
Os acontecimentos descritos cobrem um bom percurso temporal: vai de D. João VI, com a chegada da família real e chega até 1964, época em que começam anos conturbados na nossa política.
A criatividade, na obra, extrapola o nível das palavras, do discurso. Chega (e, quase em tom de brincadeira, se espraia) às imagens, (n)um desdobramento do processo criativo do autor. Situando-se entre o que caracteriza a ilustração e, brincando com as possibilidades irreverentes da caricatura, as imagens, se reportando e dialogando com as fotos originais das personagens, nos aliam, ou talvez, mais que isso, de algum modo nos reconciliam com o nosso passado. É comum, nas caricaturas, por em destaque algum exagero no traço que se deseja pôr em destaque. Isso ocorre natural e espontaneamente, quando reconhecemos nas imagens um quê de lúdico, de brincalhão, mas também de verdadeiro, de original, em relação às figuras focadas.
Sou (somos?) um ser digressivo. Quando o livro é bom, os enredos, os temas nos prendem e, mais que isso, subjugam e vamos com eles divagando. Comigo se dá sempre assim!… Quando dou por mim, me pego viajando na e com a leitura, relacionando tudo intertextualmente com outros fatos, outros textos e, mesmo sem querer, surgem reflexões e comentários paralelos.
Porque tudo, de repente, passa, vira história, faz-se estória… na primeira fase das nossas vidas, vibramos ante a força dos desejos, criamos estórias sem nos importar muito com a História, colecionamos emoções (que não sabemos analisar), armazenamos os insurgentes sentimentos… depois, na fase final, colecionamos (embora lacunarmente) lembranças, contabilizamos dores (inevitáveis), amargamos algumas decepções, experimentamos o convencionamos chamar de ‘depois’, mas contamos outras estórias e vivemos de saudades…
Como de praxe, quero parabenizar a Editora Peirópolis pelo lançamento. Quero enviar uma beijo carinhoso para as especialíssimas amigas de Sampa, Renata Farhat, Coceição Azevedo, Izabel Mohor…
E, também, ao meu amigo, Wagnr Alonso, profissional competente, ético, incansável divulgador de livros, de leituras, de ideias, da cultura…
Beijos n’alma a todos…