O mundo é realmente tão perigoso?
A escritora e psicanalista Tatiana Filinto lança seu terceiro livro infantojuvenil, Não falta nada, álbum ilustrado pelo artista plástico Visca. O livro narra a história de um menino que cresce cercado de cuidados e faz lembrar que, muitas vezes, acreditando proteger os filhos dos “perigos” do mundo, os pais acabam por atropelar tempos, iniciativas e descobertas por parte das crianças.
As ilustrações pouco convencionais de Visca ajudam a elaborar o sentido de que a diversidade na representação do mundo pode expressar a liberdade de cada um – neste caso, do autor e do leitor.
Antes deste livro, Tatiana lançou A menor ilha do mundo (2010), com ilustrações de Graziela Mattar, e Vestido de menina (2011), com a mineira Anna Cunha, ambos pela Peirópolis. O artista Visca ilustrou anteriormente o livro Folclore de chuteiras, de Alex Gomes.
Tatiana nasceu em São Paulo em 1973. Já contou, leu e inventou muitas histórias para crianças e adultos em livrarias, eventos literários, quintais de amigos, grupos de formação de educadores e salas de educação infantil. Hoje mais escuta do que conta, psicanalista que é, mas um pouco por isso mesmo, outro pouco por acreditar que as histórias estão por aí o tempo todo, continua escrevendo textos retirados do que percebe do mundo.
Peirópolis – Tati, você vem tratando nos seus livros questões que surgem de sua escuta psicanalítica. Como este livro se insere nas observações que faz do mundo e das relações entre crianças e adultos?
Não falta nada e Vestido de menina, o livro anterior a este que lanço agora, vieram para discutir um momento em que as crianças são mais curiosas acerca da organização familiar e suas origens. Estão prestes a entrar na adolescência, período de contestação e importante processo de diferenciação do grupo familiar em direção a uma trajetória própria na vida adulta.Hoje, como diz minha biografia aqui no site, mais escuto que conto por conta do meu trabalho, mas escrevo textos do que percebo do mundo – dentro e fora do consultório. Por exemplo, em 2009 estive na exposição que o SESC Pinheiros organizou tornando acessível o pensamento e proposta de um designer e autor italiano, Bruno Munari (1907-1998) e digo que teve grande impacto na escrita desse livro: o não cerceamento da imaginação, a participação ativa da criança na significação do seu trabalho e de seu lugar no mundo.
O que poderia ser conhecimento para agregar e compor o olhar que se tem sobre os filhos, a relação com estes e sobre si mesmo, acaba por obedecer uma “cultura da excelência”. O papel dos pais e educadores, muitas vezes, passa a ser traduzido por desempenho e os mais diversos conteúdos inerentes à educação dos filhos comumente categorizados e delegados a especialistas (todo o tipo de especialistas – do brincar à saúde física e mental).
Peirópolis – O mundo é perigoso?
O mundo-mundo é bastante complexo e trabalhoso, mas tinha em mente quando escrevi este texto o recorte a partir do olhar de uma criança: o mundo é realmente tão perigoso quanto meus pais parecem mostrar? Pensei em um menino que cresce cercado de “eu sei o que você quer e precisa e o que é seguro, garantido e bom para você”. Esse adulto, muitas vezes, acredita proteger os filhos e alunos dos “perigos” que o mundo tem, mas acaba por atropelar tempos, iniciativas e descobertas por parte das crianças.
Peirópolis – Qual é o limite entre proteger e superproteger?
Penso que proteger, numa determinada acepção, está mais próximo de poder zelar, cuidar, apoiar. Já superproteger, me parece, não ser um gesto em direção ao outro mas a reação diante do próprio medo de que haja perdas em relação aos filhos. E geralmente observamos efeito nesse outro, pois, este adulto toma a defesa de uma pessoa que, em todas as etapas da vida, num tempo próprio, teria condições de tentar, procurar, ensaiar, arriscar, entrar em contato com aquilo que consegue e o que ainda é difícil; o que é experimentado como bom e ruim etc.
Peirópolis – No livro, o personagem vive um momento de angústia com medo de se perder na rotina cheia de compromissos. A criança pode mesmo sentir-se desimportante diante dos desafios impostos por uma rotina muito intensa e regrada?
O distanciamento da família por meio do agendamento da vida infantil é notório nos dias de hoje. Ocupá-los com uma lista de atividades boas/importantes parece ser solução adotada de forma a praticamente normatizar a “atividade extra curricular”, entretanto, o texto desse livro brinca de fazer desconfiar que, talvez, a solução não seja tão boa assim, como precisamos acreditar. E me incluo nisso, como mãe que sou de duas crianças deliciosas, de oito e dez anos de idade.
Peirópolis – O personagem do livro se aventura para além do espaço seguro, marcado pelos pais. Você acha que a criança pode se fortalecer a partir de vivências como esta?
Vivências como esta são estruturantes e fundamentais.
Peirópolis – Em que medida o tempo ocioso pode influenciar positivamente o desenvolvimento da criança?
É comum tomarmos ‘brincadeira’ como jogos educativos e/ou atividades orientadas. Estamos tirando o tempo ocioso das crianças e temos dificuldade de vê-las entediadas. Neste caso, oferecemos imediatamente uma nova atividade, sem dar espaço para que elas pensem de forma autônoma em como preencher o tempo. Muitas vezes, é o tempo do ‘fazer nada’, entre uma atividade e outra, uma brincadeira e outra, o tempo precioso para a criança. Tempo sem demanda, ali onde pode operar o desejo. Quanta coisa acontece quando a gente não faz nada? Às vezes não fazer nada pode ser fazer muito.
Peirópolis – O que falta para que as famílias possam ter segurança em liberar seus filhos para viver o mundo lá fora?
Talvez falte, justamente, um pouco de nada. Mas aí é que está a questão. Terão segurança? Que tipo de segurança almejam? É possível liberá-los com alguma falta de segurança? Sem garantias?
Peirópolis – Para que idade escreveu este livro?
Escrevi Não falta nada pensando em uma criança de seis a dez anos de idade embora isso não seja exatamente o que penso e observo da relação leitor/livro. Essa categorização acaba por auxiliar muitas vezes na procura por um livro numa livraria ou biblioteca, mas sigo firme com meu mote: livros para pessoas; não importa a idade. Essa é a relação que tenho com os livros.
Leia aqui a entrevista com o artista plástico Visca, que ilustrou o livro Não falta nada.

Gostei do artigo e fiquei com uma enorme vontade de ler este livro