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Contos indígenas de assustar – Entrevista com Yaguarê Yamã e Taisa Borges

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Amazônia, terra e água tão vivas que até o medo tem lá suas raízes. Na série Contos Indígenas de Assustar, o escritor indígena do povo Maraguá Yaguarê Yamã, também geógrafo, ativista e um dos principais nomes da literatura indígena contemporânea,  reúne e reconta mitos de assombração que atravessam gerações entre os povos mawé, maraguá, mura e ribeirinhos do baixo Amazonas.

A coleção segue a própria hierarquia espiritual da Urutopiãg e da pajelança, duas religiosidades tradicionais amazônicas, para organizar seus três volumes:

  • Os Enjerados — seres transformados por pacto, maldição ou natureza própria: humanos que viram bicho, bichos que viram gente, como o icônico Cobra-Norato.
  • Os Visajentos — as waurãga: entidades sem origem humana, que existem apenas para assustar e matar, das classes mais temidas dessas cosmologias.
  • Os Encantados — as ipakahawãg: a ordem mais poderosa de todas, guardiã da floresta, das águas e da lei da natureza — nem boa, nem má, mas implacável com quem desrespeita seu equilíbrio.

Mais do que assustar, os livros documentam religiosidades silenciadas por séculos de colonização e evangelização forçada. Cada conto vem acompanhado de notas explicativas e glossário, e muitas histórias carregam a própria memória do autor, criado ouvindo essas narrativas nas rodas de contação às margens do rio Urariá. Todos os volumes são ilustrados pela premiada Taisa Borges, artista que já estabeleceu parceria com muitos autores indígenas.

Entrevista com Yaguarê Yamã

Peirópolis: Como você define a “literatura indígena de assombração”? Em que ela se diferencia de outras histórias de terror ou assombração que o leitor brasileiro já conhece?

Yaguarê Yamã: Essa é uma nomenclatura que dei para os contos fantásticos de cunho e autoria indígenas ambientados na floresta. Histórias indígenas de assombração de fato são uma vertente dos contos fantásticos ou da literatura indígena, cujo enredo sem dúvida é a mistura do horror e do fantástico, porém se difere de tudo, pois enquanto o horror e o fantástico tratam entidades como sobrenaturais, os contos indígenas de assombração as têm tão somente como naturais, ou seja, algo comum ao dia a dia das pessoas, além de ter seu habitat na floresta, ou seja, são naturais por duas formas, por ter seu habitat na natureza e por ser cotidiano. Vivências comuns, onde o sobrenatural não indígena não tem vez, mas um ambiente fantasmagórico, com detalhes nas tradicionais rodas de contação de histórias, regidos pelos contadores de histórias.

P: A coleção organiza as entidades em três ordens da pajelança e da Urutópiãg: os Enjerados, os Visajentos e os Encantados. Pra quem nunca ouviu falar nessa hierarquia espiritual, como você explicaria a diferença entre elas?

YY: Pajelança cabocla ou Encantaria é uma religião amazônica onde os seguidores acreditam estar dividida em três ordens: a ordem dos Encantados, a ordem dos Visajentos e a ordem dos Enjerados. Por ser uma religião de misturas, também pega esses conceitos de uma outra religião, a Urutópiãg, mais influente de toda a Amazônia, de onde vêm as concepções e os conceitos conhecidos por todo o Brasil, como os Encantados, etc.

P: Muitas dessas histórias vêm da sua própria infância, das rodas de contação às margens do rio Urariá. Como era esse momento de ouvir essas histórias quando criança? Alguma lembrança específica que você queira dividir?

YY: Não me tornei escritor por acaso, escrevo a mistura do que aprendi, do que ouvi e do que acredito. Assim, ao criar um conto “à la Yaguarê”, desses pelos quais sou conhecido, de fato minha mente remete à minha infância, tanto que em meus contos fantásticos não tem como eu falar do que não entendo, ou seja, escrevo em cima da minha cultura, amparado na minha vivência e nos mitos Maraguás e Mawés, da minha infância, mas também do tempo presente, pois ainda vivo minha infância, tenha certeza disso.

P: Você tem notado um público adulto crescente para essas histórias, além do infantil. Por que acha que essas narrativas de assombração indígena conversam tão bem com leitores de todas as idades?

YY: O sobrenatural, ao que chamo de natural, com certeza é um elemento incrivelmente chamativo e intrigante que faz pessoas de todas as idades quererem conhecer. Em tempos de materialismo, sempre há um retorno ao espiritualismo, isso é do ser humano. Somos todos iguais a esse respeito. Aproveito essa oportunidade. Meus leitores de contos fantásticos “naturais” são muitos e cada vez mais aumentam. Isso graças à diferenciação que disse anteriormente: os contos indígenas de assombração são muito diferentes de tudo. Pegam o leitor desavisado e o aprisionam no mundo encantado da boa literatura.

P: Para quem vai abrir esse livro sem nunca ter ouvido falar em Urutópiãg, pajelança ou nessas entidades, o que você gostaria que o leitor levasse dessa experiência?

YY: Sinceramente, só penso em duas coisas: na Brasilidade. Como sou ativista da Brasilidade, digo a todos que meus escritos são para pessoas que querem voltar às origens, que valorizam nossa cultura brasileira e desejam aprender cada vez mais o que é ser brasileiro raiz. A outra é a indianidade, o amor pela civilização indígena brasileira, onde o meu também é o teu, onde a terra é bem de todos, onde vale mais ser do que ter. Sou um ativista autor e não o contrário.

P: Para além do susto, os livros também documentam religiosidades que foram silenciadas por séculos de colonização e evangelização forçada. O que significa pra você esse compromisso de resgate e registro?

YY: É verdade. Muitas foram as religiosidades perdidas e silenciadas por opressão do colonizador. Muitas das manifestações que chamamos de folclóricas eram partes dessas religiões. Daí porque devemos conversar sobre, contar sobre, escrever sobre, mas nunca se apropriar. O respeito ao sagrado ainda deve existir. Façamos tudo, mas nunca esquecer de dar o direito aos povos que criaram tanto conhecimento.

P: Você já publica pela Peirópolis desde 1999. O que essa trajetória junto com a editora significa pra você, e o que espera dela nesse novo projeto?

YY: Que a Peirópolis é minha casa de origem. Nela encontrei a oportunidade que precisava. Hoje sou reconhecido, mas em 1999 ninguém sabia da beleza, da criatividade e do quanto é linda a literatura indígena, eis um reconhecimento muito importante. A Peirópolis, como editora, foi a pioneira nessa vertente, assim como o é na literatura de contos indígenas de assombração.

Entrevista com Taisa Borges

Peirópolis: O que te atraiu para um projeto que mistura mitologia amazônica e literatura de assombração?

Taisa Borges: Me interessa o ilimitado imaginário e a vivência dos povos da floresta. Das diversas dimensões da realidade presente nas estórias.

P: Antes de desenhar, que tipo de pesquisa você fez sobre a Urutopiãg, a pajelança e as entidades que aparecem nos livros? Teve alguma referência visual ou conversa com o Yaguarê Yamã que foi decisiva?

TB: A pesquisa foi através de livros e material que encontrei na internet. Mas a maior ajuda foi do Yaguarê. Ele deu o ajuste nas imagens que desenhei primeiro.

P: A coleção separa as entidades em três ordens bem diferentes entre si: os Enjerados, os Visajentos e os Encantados. Como você pensou a linguagem visual de cada volume para marcar essa diferença de natureza entre eles?

YY: Para diferenciar essas três entidades usei as cores. Uma paleta de cor para cada dramaticidade.

P: Existe alguma entidade que foi especialmente desafiadora de ilustrar — seja pela complexidade da descrição, seja pelo cuidado de não cair em clichês de terror genérico?

TB: Acho que todas foram desafiadoras pela falta de material em livros e na mídia em geral.

P: Muitas dessas figuras nunca haviam ganhado uma representação visual antes, só existiam na tradição oral. Como é a responsabilidade de dar o primeiro rosto a uma entidade que gerações inteiras só conheceram por meio da oralidade?

TB: O “pente fino” foi dado nas correções do Yaguarê, somente através do conhecimento dele as imagens puderam ser mais próximas às figuras que correm no imaginário dos povos da Amazônia.

P: Para os leitores que vão folhear o livro antes mesmo de ler o texto, o que você espera que as ilustrações comuniquem sobre esse universo?

TB: Que causem curiosidade. Estranheza e que abram portas para o desconhecido.

Sobre a trilogia Contos indígenas de assustar

OS ENCANTADOS
Yaguarê Yamã
Ilustrações de Taisa Borges
Formato 17 x 24 cm – 88 págs.
ISBN: 978-65-5931-534-5 | 978-65-5931-535-2

Sinopse

Nem todo ser sobrenatural é maligno. Fechando a lógica que estrutura toda a coleção, este volume mergulha na mais poderosa ordem de entidades da Urutopiãg e da pajelança: os encantados — os ipakahawãg, que já habitavam o mundo antes dos humanos e não são bons nem maus, apenas guardiões da lei da natureza. Aqui estão o mapinguari, terror da floresta que engana o caçador teimoso; o kurupira, protetor dos animais de caça, capaz tanto de generosidade quanto de punição implacável; os jumas, gigantes antropófagos dos grotões amazônicos; os botos — os “companheiros do fundo” —, sedutores que sobem à superfície em forma de gente; as yaras, mães-d’água que não perdoam desobediência nem desrespeito ao rio; e as cobras-grandes que dormem sob cidades inteiras, capazes de engolir aldeias ao acordar. Unindo memória de infância, mitologia maraguá, mawé e sateré, e o alerta ecológico que atravessa cada história, Yaguarê Yamã mostra que o verdadeiro perigo, no fundo, é sempre humano: quem desafia, desrespeita ou mata mais do que pode comer.

OS ENJERADOS
Yaguarê Yamã
Ilustrações de Taisa Borges
Formato 17 x 24 cm, 80 págs
ISBN: 978-65-5931-531-4 | 978-65-5931-530-7

Sinopse

Bichos que se transformam em pessoas. Pessoas que se transformam em bichos. Neste primeiro volume da série, Yaguarê Yamã reúne histórias de enjerados — seres que carregam a marca da transformação, fruto de pactos, maldições ou de sua própria natureza. Entre elas está a lendária saga de Cobra Norato e Maria Kaninana, filhos-cobra de uma mulher mawé; a vingança de um espírito de muitos olhos; o tajá que se torna onça para guardar uma casa; e o pescador que descobre, tarde demais, que seu companheiro de canoa não é gente como as outras pessoas que conhece. Ancoradas na Urutopiãg e na pajelança, tradições religiosas dos povos da Amazônia, essas narrativas de assombração vêm acompanhadas de notas explicativas e glossário, revelando o universo de crenças por trás de cada mito.

OS VISAJENTOS
Yaguarê Yamã
Ilustrações de Taisa Borges
Formato 17 x 24 cm – 98 págs.
ISBN: 978-65-5931-532-1 | 978-65-5931-533-8

Sinopse

Se os enjerados guardam um resquício de humanidade, os visajentos não guardam nenhuma. Neste volume, Yaguarê Yamã narra as entidades mais temidas da Urutopiãg — os waurãga, quinta classe da hierarquia dos espíritos da floresta, tão poderosos que só um espírito protetor pode vencê-los. Entre as histórias estão a vingança arrepiante das cinco crianças mortas pelos próprios pais, os waxiní raíra; o fogo-fátuo ariá-w-açú, que dança sobre o rio e devora quem ousa cruzar seu território; a sedução mortal da Kunhãgwera; a Pókwara e sua mão furada, que decide entre o sono e a asfixia; e a Matĩ Tapewera, o pássaro-fantasma capaz de se transformar em três formas ao mesmo tempo. Ambientadas nas margens do rio Urariá e tecidas com memórias de infância do próprio autor nas rodas de contação de história, essas narrativas revelam entidades que não pactuam, não negociam e não perdoam — pura assombração, no sentido mais literal da palavra.

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