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Cadê o rio que estava aqui? – Material complementar

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Esconde-esconde na cidade: a relação entre os rios, as ruas e a gente

Teresa de Carvalho Magalhães[1]

A gente também é rio

           

Mas, então, ao menos que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água, que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro – o rio.

João Guimarães Rosa,

no conto A terceira margem do rio

A relação entre os seres humanos e os rios, sabemos, é antiga. A água doce é fonte da vida, humana e não humana e, portanto, essencial para a nossa existência. Aprendemos na escola que as primeiras civilizações não nômades se instalaram perto de cursos d’água – como os egípcios no delta do Nilo, por exemplo. A água era necessária para a agricultura, para cozinhar, tomar banho e, claro, beber. Mas não foram apenas questões de subsistência que nos fizeram viver perto dos rios. Que outras importâncias têm os rios para os seres humanos?

Dessa vez não precisamos ir até o continente africano para descobrir: o Brasil é o país com a maior reserva de água doce do planeta! E as sociedades que já estavam aqui antes da invasão colonial portuguesa podem nos ajudar bastante a desvendar: por que os rios são tão importantes para a gente? Ailton Krenak, liderança indígena e ambientalista, escreve, em Futuro Ancestral uma “Saudação aos Rios”:

Gostamos de agradecê-lo, porque ele nos dá comida e essa água maravilhosa, amplia nossas visões de mundo e confere sentido à nossa existência. À noite, suas águas correm velozes e rumorosas, o sussurro delas desce pelas pedras e forma corredeiras que fazem música e, nessa hora, a pedra e a água nos implicam de maneira tão maravilhosa que nos permitem conjugar o nós: nós-rio, nós-montanha, nós-terra. Nos sentimos tão profundamente imersos nesses seres que nos permitimos sair de nossos corpos, dessa mesmice da antropomorfia, e experimentar outras formas de existir. Por exemplo, ser água e viver essa incrível potência que ela tem de tomar diferentes caminhos.

Os rios, assim como elementos da paisagem natural, outras formas de vida, constituem nossa subjetividade. Afinal, não somos feitos de aço, concreto, vidro ou asfalto, como os tantos prédios, ruas e avenidas que fazem uma cidade. Somos matéria orgânica, constituídos, em grande parte, de água! Estar perto de rios, de água limpa e fresquinha, pode nos trazer vitalidade, saúde física, psíquica e espiritual. Mas como podemos nos dar conta disso, morando em cidades grandes, onde os poucos rios presentes estão poluídos, adoecidos ou soterrados?

O herói do livro Cadê o rio que estava aqui? nos dá algumas pistas. E, como ele, muitas pessoas se inquietaram com a ausência dos cursos d’água nas paisagens urbanas, principalmente nas grandes metrópoles da região sudeste do Brasil. Ausência que, estudando a história das cidades brasileiras e olhando alguns mapas, percebemos ser, na verdade, uma presença escondida. Os rios estão lá, mas canalizados, aterrados… há rios que nascem em estacionamentos, no terreno da casa de alguém, correm embaixo de uma grande avenida. Nas cidades grandes, podemos andar ou dirigir todos os dias sobre um rio sem perceber!

Existe um mapa elaborado pelo jornal Estado de São Paulo, e disponível na internet, que usa os dados da base GeoSampa para mostrar quais rios da capital paulista estão canalizados, subterrâneos ou a céu aberto, em estado natural ou em lago ou reservatório. O mapa “Rios invisíveis de São Paulo” pode ser acessado neste link.

Às vezes os rios também reaparecem nas enchentes que acontecem nos dias de chuva. A cantora e compositora Luiza Lian, assim como Ailton Krenak, escuta as águas. Mas desta vez, nos rios escondidos de São Paulo, como ela canta na música Iarinhas, escrita em parceria com a escritora, roteirista e tradutora Leda Cartum, como podemos conferir neste pequeno trecho:

Essa rua tem o nome de um rio que a cidade sufocou

A vontade do rio de voltar

Às vezes sacode de algum lugar”[2]

 

 

Nas cidades com seus rios escondidos, há este jogo de presenças e ausências, mas, na vida que se vive à beira dele, o mistério também permanece. Na literatura e na filosofia, os rios são fonte e inspiração de reflexões sobre a própria condição humana. Conhecemos a famosa frase de Heráclito, refletindo sobre as transformações na vida e nossa relação com o tempo, diz que “ninguém entra duas vezes no mesmo rio”. Ou o conto “A terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa, que nos faz pensar sobre o que é oculto, misterioso, invisível – como uma terceira margem. Paulo Rónai, tradutor e crítico literário, diz que “todos os rios do mundo de Guimarães Rosa têm três margens”. A observação e a convivência com os rios realmente “confere sentido à nossa existência”, como disse Ailton Krenak.

Ver com outros olhos: os olhos d’água

Leo Cunha e Paulo Rea, os autores do livro Cadê o rio que estava aqui? olham para a cidade e veem “o outro lado”, ou seja, o espaço que não foi urbanizado. Onde, dentro da cidade, a cidade não chegou, e ainda resta natureza. Leo em Belo Horizonte, Paulo na capital paulista, os dois amigos conversavam sobre este assunto quando veio a ideia do livro.

Através da poesia escrita pelo Leo, vamos flutuando nesta descoberta: será que tem rio escondido aqui? E as ilustrações em marchetaria, esta técnica que trabalha com a colagem, também vai mostrando o que não vemos, “pois utiliza lâminas de madeira que estão escondidas no interior dos troncos”, como disse Paulo Rea, em entrevista à Editora Peirópolis. O livro, além de tudo, é um convite: como observar a cidade para além do que ela parece ser, percebendo as contradições, as insurgências. Pode ser um barulhinho de água correndo embaixo do chão que pisamos, ou uma planta que insiste em brotar no meio do concreto. O que o livro nos instiga a pensar é que a cidade não está ali desde sempre – e é a natureza que é a nossa primeira casa.

Em São Paulo, dois outros amigos – o geógrafo Luiz de Campos Jr. e o arquiteto José Bueno – se uniram com um objetivo de promover expedições pela cidade para mostrar o que ninguém conseguia ver: as centenas de rios que existem na capital paulista. Essa iniciativa foi crescendo, até virar o Instituto Rios e Ruas. Hoje, eles trabalham com educação ambiental em muitos bairros da cidade, conscientizando a população sobre os rios: a água limpa também é um direito.

A Renata Falzoni, que assina o posfácio do livro Cadê o rio que estava aqui? também pode nos inspirar: ela é uma ativista pela mobilidade urbana sustentável. Ou seja, pela presença dos pedestres, das bicicletas e não só dos carros. E aí, quando a gente anda a pé na rua, a falta de uma paisagem saudável é maior ainda. Por isso, a Renata também atua na proteção dos rios e nascentes da capital paulista. Ela está sempre andando por aí (muitas vezes de bicicleta), procurando praças, nascentes, e outros espaços na cidade onde possamos desfrutar de uma vida com mais prazer e dignidade.

Outro caçador de nascentes, que muito se parece com o personagem do livro, é o Adriano Sampaio. Paulista de família baiana, sempre teve uma conexão especial com as águas. Adriano sonhava com algum lugar da cidade, como um estacionamento de carros, por exemplo, e no seu sonho, ali corria um rio. Depois, ia verificar, e o rio realmente estava ali, mas silencioso, embaixo da terra. Através dessa sua sensibilidade, Adriano abriu diversas nascentes na cidade, incluindo o Rio Bravo, na aldeia guarani Itakupe. O rio, para os guarani mbya que moram na cidade, tem uma importância espiritual enorme, e possibilita o bem viver. A história do Adriano pode ser lida ou assistida no site do Museu da Pessoa[3].

Adriano caminhando ao lado do lago do Rio Bravo, na aldeia Itakupe, Terra Indígena Jaraguá – SP. Fotografia de Teresa de Carvalho, maio de 2026.

No Brasil afora, há muitas outras iniciativas como essas. Podemos citar o projeto Olho d’água, que atua em nível nacional na recuperação de minas e nascentes; a iniciativa Salve o Urubu, em Brasília, o Rios (In)Visíveis, em São Paulo… uma coisa elas têm em comum: são movidas por pessoas curiosas, inquietas, que olham para a cidade com outros olhos. E nos ensinam que em todo lugar podemos encontrar brechas na vida difícil da cidade grande. E talvez a pergunta mais importante e provocadora continue sendo a mesma: Cadê o rio que estava aqui?

Para além da leitura: ideias para atividades

A leitura pode nos instigar boas conversas e muitas reflexões, mas também pode dar vontade de agir, tal como faz o personagem, nosso colecionador de rios. Seguem algumas atividades como desdobramentos possíveis da leitura:

1. Caçadores de nascentes

Qual será a nascente mais próxima da sua casa? Ou da escola, ou da biblioteca que frequenta? Dependendo da cidade em que você mora, pode ser que os rios escondidos – e os aparentes – estejam mapeados pelo IBGE. Se você for de São Paulo, pode até usar o mapa que está neste material! De qualquer forma, o mapa é só uma ajuda.

Existem outras pistas nas ruas da cidade que ajudam a achar um rio. É preciso observar com atenção: murmúrios d’água ou água correndo limpinha na sarjeta, bueiros com um fluxo grande de água, nascentes em praças… Você pode até ir fazendo um mapa dos seus achados. O jeito é ir seguindo as pistas e depois ir conferir no mapa oficial se era mesmo um rio ou um córrego que estava ali. E qual será o nome dele?

2. Falando em nome…

Você já pensou sobre os nomes dos rios brasileiros? Muitos deles têm origem indígena – já que os povos originários estavam aqui antes dos colonizadores e já tinham dado nome para quase tudo! Rio Tietê, rio Xingu, rio Paraná, rio Araguaia, rio Capivari… Todos esses – e muitos outros – têm nomes de origem indígena. Em geral, esses nomes tinham a ver com a aparência e características do rio ou com os animais que costumavam viver em suas margens, por exemplo. Tietê, por exemplo, quer dizer “água turva” ou “águas escuras”; Xingu, “rio das grandes águas”; Araguaia,“rio das araras”, e por aí vai…

Mas a questão é: tem rio que sumiu, foi concretado. Muitas vezes, a rua que foi criada em cima leva o mesmo nome do rio! Outras vezes, isso não acontece, e o nome do rio também acabou ficando escondido. Em São Paulo, podemos observar alguns casos:

Avenida Pacaembu: fica exatamente sobre o leito do antigo ribeirão Pacaembu.

Avenida Sumaré: foi construída sobre o traçado do córrego Sumaré.

Vale do Anhangabaú: o antigo ribeirão Anhangabaú corre canalizado sob a região central.

Avenida 9 de Julho: esconde o fluxo dos antigos córregos Saracura e Iguatemi.

Avenida 23 de Maio: passa diretamente por cima do leito do antigo rio Itororó.

E na sua cidade? Que tal fazer essa investigação? Ver por quais ruas passam os rios silenciosos e se os nomes delas têm alguma semelhança com o nome do rio? E ainda, como os rios de sua cidade foram nomeados? São nomes de origem indígena? Neste caso, o que significam?

Com o resultado da pesquisa em mãos, pense em uma forma de compartilhar com a comunidade. Afinal, quanto mais gente souber da existência dos rios, mais chances temos de preservação.

3. Como os artistas olham para os rios? Outras maneiras de representação

Em Cadê o rio que estava aqui?, Leo Cunha e Paulo Rea denunciam a situação de muitos rios e córregos nas cidades brasileiras. Além da literatura, outras formas de arte também podem ser um interessante canal de denúncia, alerta e sensibilização para essa importante questão ambiental nas cidades. Que tal conhecermos outras formas de denunciar a ausência dos rios, como estamos tratando os rios nas grandes cidades não apenas no Brasil, mas no mundo? Muitos artistas têm se sensibilizado com essas questões, provocando as pessoas a pensarem sobre o assunto, a partir de intervenções muito diversas.

Isabela Etchenique (São Paulo, Brasil)

Isabela conheceu o trabalho do coletivo Rios e Ruas e começou a desenhar os cursos dos rios. Mais tarde, foi adicionando camadas ao seu trabalho, utilizando sombras e transparências que nos fazem pensar sobre essas ausências e aparições dos rios de São Paulo.

Quando visto vira rio, se reinventa a cada momento, nasce, derrama e morre, são tantos em um. Já foi meu, já foi seu, agora voltou para mim. Um avesso de desavessos.” Isabela Etchenique, para o site do Escritório de Arte Magalhães Gouveia, sobre a exposição “Supostas cartografias”, de 2023.

Para saber mais sobre o trabalho da artista, clique aqui.

Olafur Eliasson (Copenhague, na Dinamarca)

Olafur utiliza corante biodegradável para mudar radicalmente a paisagem: a água dos rios torna-se verde. Essa mudança pode parecer pequena, mas transforma nossa forma de ver o que sempre estava ali: a água e os diversos caminhos que ela vai tomando.

As fotos de Green River, ou, Rio Verde, podem ser vistas aqui.

Xadalu Tupã Jekupe (Alegrete, Rio Grande do Sul)

Xadalu é indígena da etnia guarani mbya, nascido no estado do Rio Grande do Sul. Seu trabalho traz à tona a importância dos rios e das águas, tanto para a cosmovisão mbya, quanto em sua trajetória de vida, já que o próprio artista cresceu brincando às margens de um rio.

Neste link, podemos ver algumas de suas obras e assistir aqui aos vídeos de Xadalu comentando sua criação.

Para ir além:

Indicação de outras obras literárias que podem dialogar com Cadê o rio que estava aqui?

Um canto para o rio

Roberta Brangioni Fontes e Taisa Borges

Editora Peirópolis

Esta é a história de um rio acostumado a criar vida junto com a terra, mas vítima da ganância humana e de uma grande tragédia que o contaminou. Inspirado no rompimento da barragem de rejeitos que atingiu o Rio Doce em 2015, o livro fala sobre amor à natureza e mudanças de valores e atitudes para que situações como essa não se repitam. Os personagens e cenários são inspirados em pessoas, comunidades tradicionais e animais da Bacia do Rio Doce. De forma sensível e poética, o conto pode ser um recurso para educadores trabalharem questões ambientais com as crianças, transformando uma história de destruição e morte em uma mensagem de união e esperança.

Um dia, um rio

Leo Cunha e André Neves

Editora Pulo do gato

Um dia, um rio é o lamento de um rio invadido pela lama da mineração, que destrói suas águas e as vidas que abriga. Com lirismo e contundência, o livro recorda o tempo em que o rio alimentava seu leito, suas margens e as regiões por onde passava, dialogando com o desastre ambiental que abalou a Bacia do Rio Doce em 2015. A poesia do texto e a força das ilustrações dão voz a outras vozes silenciadas e abordam temas como infância, preservação ambiental, natureza, cultura e responsabilidade social. Gênero: poesia ilustrada.

O que é um rio?

Monika Vaicenaviciene

WMF Martins Fontes

Vó, o que é um rio? Um rio é um fio, diz a minha avó. Ele cria padrões bonitos na superfície da terra, faz renascer campos e consciências, cria histórias e faz com que diferentes lugares, épocas e pessoas se encontrem.

Fio de rio

Anita Prades

Selo Emília

Fio de rio é o primeiro livro infantojuvenil da autora e ilustradora Anita Prades. Com narrativa predominantemente visual, conta a história de uma menina que vive na cidade grande em tempos de seca e estiagem e descobre um pequeno fio de rio em uma calçada cinzenta. A partir daí, ela embarca em um passeio imaginativo pelas memórias que correm sob o asfalto. Com imagens delicadas e texto sintético, a obra propõe uma experiência de descoberta que transforma o olhar sobre a metrópole.

Referências Bibliográficas

KRENAK, Ailton. Futuro Ancestral. Companhia das Letras, 2022.

ROSA, João Guimarães. Primeiras Estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

Notas
[1] Geógrafa, formada pela FFLCH/USP, é mestranda em Geografia Humana pela mesma instituição e pós-graduada em Sistema Laban/Bartenieff de Análise de Movimento pela Faculdade Angel Vianna (RJ). Integra a Rede de Atenção à Pessoa Indígena do Instituto de Psicologia da USP e o Coletivo Capim.

[2] A música inteira pode ser apreciada neste link.

[3] Para conhecer a história de vida do adriano, clique aqui.

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