Projeto Quixote: Rematriamento comunitário em Sapopemba

Publicado em: 17/01/2022 Categorias: Notícias

REMATRIAMENTO DE CRIANÇAS EM SITUAÇÃO DE RUA

No trabalho de atendimento a crianças e adolescentes em situação de rua, fragmentos da história que fez aquela criança ou adolescente estar ali não tardam a aparecer quando o vínculo começa a ser construído, com confiança e delicadeza, entre encontros e intervenções. Histórias mais ou menos veladas, marcadas por violência, decepção, rancor, saudades, passam a ser narradas aos pouquinhos. E a comunidade de origem e a família tornam-se cada vez mais presentes, até que em um momento se faz urgente estar mesmo presente com a família, e não “apenas” com as narrativas e memórias desses vínculos trazidas entre passos nas conversas na rua.

Aliás, todo o trabalho de atenção a esse fenômeno bizarro, que é a existência de crianças e adolescentes vivendo em situação de rua, parte da indignação e da indagação sobre por que produzimos socialmente essa situação que ilustra de forma dramática um enredo de violações de direitos. Estar atento às histórias e vivências que levam crianças e adolescentes às ruas é um exercício contínuo de escuta, uma escuta ativa que ajuda todos os envolvidos a também entenderem esse processo cheio de lacunas, angústias e questionamentos. Muitas ações de rematriamento se dão por meio da linguagem, da compreensão desse processo e da busca de sentidos para algumas experiências traumáticas.

No momento em que se aproximar da família, é possível, seja por uma espécie de autorização dada pelo atendimento da criança ou adolescente, seja pela urgência, seja pelas informações de endereço e da rede local, nos aproximarmos da comunidade e da rede no território de origem, a mátria, e, aí, um novo mundo começa a ser desbravado. O universo de relações, demandas, dificuldades e potências daquela criança ou adolescente que encontramos nas ruas se multiplica exponencialmente.

Cada mãe, cada pai, irmãos, escolas, a cozinha, os fios desencapados, a chuva que molha o quarto, o cartão do auxílio que se perdeu, os cachorros, a fome, o mé, o crack, as consultas, os dutos, a falta de RG, o skate sem rodinhas se conectam para sugerir fortemente um destino e um percurso que se inicia nas vielas e nos oásis da comunidade onde brincam e culmina em grandes avenidas, para venda de balas, em praças e centros de bairros ou mesmo o centro da cidade, para dormir, consumir, escapar, sobreviver.

Frente à vida que pulsa em cada narrativa de alguém que chega à situação de rua, fica clara a necessidade de estarmos mais nessa origem, nessa comunidade, na mátria, para resgatar as presenças para, quem sabe, entender e evitar esses rompimentos de vínculos que ocorrem em famílias com histórias de crianças e adolescentes que saem para as ruas.

A experiência do Projeto Quixote indica que essas crianças têm origem em sua maioria em bairros da periferia da cidade e migram para o centro, como refugiados urbanos em um complexo processo de rompimento de vínculos com a mátria, a comunidade de origem. Nos casos atendidos pelo Projeto Quixote, cerca de 30% das crianças e adolescentes se originam da Zona Leste da cidade de São Paulo.

Segundo o Plano Municipal de Políticas para a População em Situação de Rua, da cidade de São Paulo, um dos pontos de prevenção fundamentais são as ações destinadas à primeira infância. Por ser uma faixa etária bastante vulnerável e fundamental para o desenvolvimento do cidadão, as vivências de violência tanto na comunidade quanto na família e até mesmo nas ruas são muito impactantes no desenvolvimento. O Marco Legal da Primeira Infância (Lei 13.257/2016) considera que as políticas públicas para a primeira infância devem levar em conta esse público como sujeito de direitos e prioridade absoluta das políticas e buscar ações que atendam o superior interesse da criança, respeitando suas individualidades, e também os diferentes contextos e culturas em que se encontra.

No caso das crianças ou adolescentes em situação de rua, observa-se que em geral vivem em um contexto de pobreza com famílias em situação de vulnerabilidade. Para que esse ciclo de violação de direitos seja interrompido e que essas crianças que já se encontram em situação de rua possam retomar suas vidas de forma mais protegida, ou que outras crianças não venham no futuro a trilhar o mesmo destino, são fundamentais ações que fortaleçam as famílias, a rede local, e estimulem a permanência das crianças na escola.

Cláudio Loureiro, equipe do Projeto Quixote

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