Mais sobre Comênio e a educação

Publicado em: 24/04/2026 Categorias: Impressões de leitura

A Editora Peirópolis tem o prazer de apresentar a nova edição da peça radiofônica Muitas coisas, poucas palavras (A oficina do professor Comênio e a arte de ensinar e aprender) de Francisco Marques Vírgula Chico dos Bonecos, com direção musical de Estêvão Marques.

E foi assim

Iniciei a leitura da Didática Magna, de Comênio, como quem vai simplesmente visitar um monumento que marcou a história da educação, mas… Logo ali, na segunda página, a minha leitura sofreu um abalo monumental:

“A proa e a popa da nossa Didática será investigar e descobrir o método segundo o qual os professores ensinem menos e os estudantes aprendam mais.”

A partir dessa crítica bem-humorada e desafiante, iniciei um longo mergulho na Didática Magna…

E a minha amizade com o autor chegou a tal ponto, que resolvi fazer um convite:

– Professor Comênio, o senhor não gostaria de falar para os pais e os professores de hoje?

Ele respondeu com uma pergunta:

– Mas o que eu vou falar?

Eu respondi usando as suas próprias ideias:

– Você vai falar muitas coisas em poucas palavras. E os pais e os professores não vão apenas ouvir as suas ideias, eles vão ver a sua paixão.

E foi assim que eu comecei a escrever a peça radiofônica Muitas coisas, poucas palavras (A oficina do professor Comênio e a arte de ensinar e aprender).

O reencontro e a reescrita

Em 2005, li pela primeira vez a Didática Magna, de João Amós Comênio, lançada em 1657. Nesse livro, dedicado aos pais e aos professores, o autor fundamenta e sistematiza a sua intensa experiência em sala de aula. Para mim, essa leitura foi um susto e um encantamento – e mergulhei no estudo da obra e do autor.

Para comunicar essa descoberta, lancei, em 2009, pela Editora Peirópolis, a peça radiofônica Muitas coisas, poucas palavras, em que o próprio Comênio fala diretamente para os pais e os professores de hoje.

Exatamente no dia 15 de outubro de 2019, Dia do Professor, recebi um convite da Renata Borges, da Peirópolis, para lançar novamente o livro. Como eu estava arquitetando outros projetos, achei melhor não relançar naquele momento. Mas… Motivado pelo convite da Renata, reli a Didática Magna – e o susto e o encantamento foram ainda maiores. Animado por esse reencontro, tornei a estudar Comênio e reescrevi a peça radiofônica.

Uma parte desta edição acompanha o texto de 2009, mas vários trechos foram deslocados e reagrupados, dando novo sentido às mensagens, e fazendo a peça fluir com mais agilidade. Outra parte é inédita, incorporando muitas reflexões que eu não soube compreender naquela época. Além disso, introduzi ideias de outro livro de Comênio: A escola da infância.

A inacreditável proeza

Na verdade verdadeira, esta nova edição é, ao mesmo tempo, bem menor e imensamente maior.

É bem menor em número de palavras: 20% a menos.

E é imensamente maior em número de ideias: 60% a mais.

Para realizar essa inacreditável proeza, eu apenas segui as orientações do professor Comênio:

– Usar sempre palavras simples, sólidas, breves, essenciais.

Só assim a gente consegue transmitir o máximo de mensagens em um tempo mínimo. Só assim a gente consegue colocar em prática a nossa bandeira: Muitas coisas, poucas palavras.

As duas perguntas

João Amós Comênio (1592 – 1670) revolucionou a educação no sentido social e no sentido pedagógico.

No sentido social, porque ele estabeleceu as bases de uma escola pública, democrática, para todos.

No sentido pedagógico, porque ele estabeleceu uma nova pergunta: Como a criança aprende?. Somente a partir dessa investigação, o professor conseguirá responder adequadamente à clássica pergunta: “Como ensinar?”.

É por isso que o professor Comênio tem, como ponto de partida,  o seguinte desafio:

– Ora, ora! Em se tratando do corpo e dos movimentos, a criança aprende tantas coisas, e tão rapidamente, com tanta imaginação e energia. Ora, ora, carambola! Em se tratando da inteligência e dos conhecimentos, a criança não poderia aprender assim também: tantas coisas, e tão rapidamente, com tanta imaginação e energia?

Uma pedagogia de bolso

A peça radiofônica Muitas coisas, poucas palavras é dedicada a todas as pessoas com vontade de aprender e ensinar. De maneira especial, é dirigida aos professores da Educação Infantil, que atende às crianças de zero a 5 anos, e aos professores do primeiro ao quinto ano do Ensino Fundamental, que atende aos alunos de 6 a 10 anos.

Mas… A peça também traz contribuições para os anos seguintes, pois o projeto do professor Comênio é abrir uma estrada que ensine tudo a todos, ao longo da vida, num processo de educação permanente.

Muitas coisas, poucas palavras é um livro para estar sempre por perto, ao alcance das mãos, porque todos nós precisamos de uma filosofia de bolso, que nos relembre as permanentes novidades das verdades de sempre e que possa ser levada para todos os lugares – assim como carregamos a chave de casa.

E é justamente isso que Comênio nos oferece nesta peça: uma pedagogia de bolso, de uma simplicidade luminosa, de uma profundidade sedutora, de uma praticidade emocionante – e não existe aventura mais emocionante do que empunhar uma chave e abrir a porta da própria casa.

Sugestões para a montagem da peça

A peça radiofônica Muitas coisas, poucas palavras é, na verdade verdadeira, uma peça teatral que envolve apenas um ator. Ela pode ser encenada por qualquer pessoa que se sinta encantada com as ideias comenianas…

O próprio Comênio, na cena 5, traz algumas orientações para a caracterização do seu personagem:

“E as palavras do professor são, sempre, palavras simples, sólidas, breves, essenciais.

E a voz do professor é, sempre, uma voz clara e calma. Uma voz que enche de vida cada frase, cada palavra, cada sílaba. Uma voz que convive muito bem com… O silêncio.

E os gestos do professor estão sempre em harmonia com as suas palavras. Os gestos do professor seguem o ritmo de sua voz: gestos claros e calmos.”

E caberá a esse ator o mergulho fascinante no mundo dos ensaios: aquecer o corpo, projetar a voz, memorizar o texto, incorporar o personagem, ocupar os espaços, dominar os objetos de cena e interagir com a plateia imaginária – semente da plateia real.

Nessa peça, Comênio responde várias vezes aos questionamentos de um “ouvinte imaginário” – presente nas cenas 1, 2, 3, 9 e 10. Eu sugiro que esse personagem invisível seja caracterizado de maneira sutil, contrastando levemente com a voz e a gestualidade do protagonista.

Essa peça, entretanto, pode ser montada de outras maneiras. Deixo aqui duas sugestões:

Montagem coletiva: dez atores, um para cada cena. Esse formato agiliza o processo de montagem, mas exige uma grande sintonia do grupo, pois os atores devem ter um traço de personalidade em comum: o professor Comênio.

Leitura dramática: uma leitura em voz alta, expressiva, em que os olhos do leitor buscam frequentemente os olhos da plateia. Esse formato não requer a memorização do texto, mas exige igualmente muitos ensaios. Para ler essa peça na velocidade dos olhos, dedicando-se ao conhecimento superficial do texto, você vai precisar, aproximadamente, de 10 minutos. Mas… Para uma leitura na velocidade da fala dramática, dedicando-se a dar vida ao personagem, você vai precisar, aproximadamente, de 25 minutos.

Esta peça traz muitas marcas de oralidade, como a repetição de palavras, expressões e estruturas de frase. Quando o destinatário do texto é o leitor, não precisamos usar essa técnica, pois você pode, em caso de dúvida ou distração, parar e reler a qualquer momento. Porém, quando o destinatário é o ouvinte, as repetições são essenciais, pois permitem que a plateia tenha tempo e calma para ouvir e elaborar internamente cada reflexão.

Considerando essa característica, sugiro que você leia essa peça teatral em voz alta, falando para as paredes – que são sempre muito atenciosas… No caso de uma leitura silenciosa, procure ler mentalmente em voz alta.

Esta peça, que é um monólogo teatral, pode ser apresentada nos mais diferentes espaços: na sala, no salão, no pátio, no auditório, na praça – e até mesmo no palco, utilizando todos os recursos de som e iluminação.

A ideia central da apresentação está sintetizada no título: Muitas coisas, poucas palavras. Para que os espectadores possam vivenciar as ideias comenianas, proponho que cada cena termine com uma canção e um brinquedo. Você pode usar as dez canções que já fazem parte da peça radiofônica ou escolher outras que estão mais ligadas à sua comunidade –  e convide a plateia a cantar. Para os brinquedos, pesquise também o acervo tradicional – e convide algumas pessoas da plateia para brincar.

Ao término de cada cena, o ator pode espalhar os brinquedos de forma que fiquem à vista da plateia. Assim, eles serão incorporados ao próprio conteúdo das reflexões. Por exemplo… No início da cena 5, Comênio anuncia: “O professor prepara o ambiente e coloca à disposição da criança diversos materiais”. Nesse momento, o ator pode estender as mãos na direção dos brinquedos que foram apresentados no final das cenas 1, 2, 3 e 4.

E o mesmo gesto pode ser realizado na última frase da cena 10: “Eu gostaria que a lembrança desta viagem acompanhasse a bandeira das crianças…” E aqui teremos muito mais brinquedos espalhados, o que dará maior concretude à mensagem final: “Muitas coisas, poucas palavras”.

Além de ajudar o público a assimilar melhor as reflexões, que são sempre muito densas, esses intervalos para canções e brinquedos favorecem a interação entre o ator e os espectadores, que são convidados a se colocar no lugar da criança.

A montagem dessa peça, portanto, segue fielmente as orientações do professor Comênio:

“O mundo é a nossa escola. E no grande teatro do mundo, os nossos alunos são, ao mesmo tempo, espectadores e atores.”

Bom espetáculo!

O Tucano e o Pavão

Para Comênio, o professor deve ajudar a criança a descobrir os seus talentos.” O professor “ajuda”, não “impõe”… Na escola comeniana, a criança aprende a descobrir a própria fonte da inteligência:

“Até aqui, as escolas não se têm proposto realmente como objetivo habituar os espíritos a irem buscar o vigor às próprias raízes, como fazem as árvores, mas têm-lhes ensinado apenas a munirem-se de pequenos ramos arrancados de outro lugar, e, assim, a enfeitarem-se com as penas dos outros, como o corvo de Esopo; e têm-se esforçado, não tanto por cavar a fonte da inteligência neles escondida, como por irrigá-la com águas alheias.” (Didática Magna. Capítulo XVIII: parágrafo 23)

Para expressar essa ideia, Comênio faz referência a uma famosa fábula. Eu recriei essa história e gostaria de contar para você. Quer ouvir? Então, é só clicar aqui ou abaixo.

Existe uma música já presente no aprender

Fernando Barba

Muitas coisas, poucas palavras…

Essa frase ecoou em minha cabeça após a primeira audição dessa maravilhosa peça radiofônica. Como um ouvinte curioso me envolvi imediatamente na narrativa e vi como as ideias universais de Comênio puderam atravessar os séculos e permanecer atuais ao serem traduzidas com muito carinho e sensibilidade por Francisco Marques e pela poética direção musical de Estêvão Marques.

Tive uma identificação muito grande com as ideias presentes na Didática Magna e a sensação familiar de que nesse discurso as palavras eram em si tão importantes como a maneira na qual elas eram faladas ou cantadas. Em seguida fiquei muito contente em poder contribuir com esse projeto e ao começar fiquei lembrando do meu próprio processo de aprender…

Na minha infância fui arrebatado por uma curiosidade enorme pela música e pelos sons. Na minha lembrança, estudar música era o mesmo que brincar, dar vazão a uma curiosidade e uma vontade enorme de aprender. Gostava tanto de tocar e vivenciar a música que mesmo quando estava sem instrumentos por perto eu começava a batucar em meu próprio corpo. Esses eram momentos de ócio e prazer e ao mesmo tempo exercícios do intelecto, da motricidade e da imaginação, eram estudo e brincadeira juntos. Essa curiosidade de inventar me levou naturalmente a ensinar esses batuques a outras pessoas e isso acabou se tornando minha profissão.

Mais tarde, na minha atividade como músico e como professor desta “música corporal”, observei inúmeras vezes os benefícios que os educadores colhem ao incluir a música, o corpo, a representação, o movimento, a linguagem não verbal e o brincar como ferramentas no processo de ensinar. Existe uma música já presente no aprender. A melodia da voz do professor, o ritmo de sua fala e de seus gestos são referências constantes ao aluno que aprende com todos os seus sentidos.

Nessa visão esse livro cantado é de grande auxílio e utilidade aos educadores das mais diversas áreas. Ele aponta não só ideias essenciais como traz em si exemplos vivos e claros da utilização da arte na sala de aula. A apresentação se dá de uma forma envolvente onde palavras e sons se fundem despertando a curiosidade, a imaginação e o “filosofar” do ouvinte.  As letras das músicas sugerem múltiplas imagens que ilustram poeticamente o texto e as vozes divertidas e melodiosas nos despertam para uma escuta mais aberta e lúdica.

Toda a riqueza dessa ambientação sonora presente no trabalho foi feita utilizando-se de recursos de grande simplicidade e muita poesia. Violões, vozes, instrumentos feitos a partir de sucata e o uso do próprio corpo como fonte musical são elementos que colorem o discurso de Comênio. Fica muito claro nesse lindo trabalho que todos esses recursos musicais, teatrais e lúdicos podem ser utilizados e adaptados facilmente por qualquer professor em qualquer sala de aula como auxiliadores do aprendizado.

Desejo que esse trabalho atinja em cheio os corações de todos nós, educadores, mantendo vivas as nossas brincadeiras e os nossos batuques que são essenciais em nosso ofício de ensinar e aprender.

(Esse texto, escrito por Fernando Barba (1971-2021), foi publicado na primeira edição da peça radiofônica Muitas coisas, poucas palavras.)

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