Fortuna crítica – 30 anos da Peirópolis
O catálogo da Editora Peirópolis apresenta seus livros, um a um, de modo a facilitar a melhor escolha do adulto que pretende fazer uma leitura compartilhada, contar uma história ou incentivar a leitura de histórias, tendo em vista a formação do leitor no decorrer de sua infância e
adolescência.
Vale lembrar que um mesmo livro pode ser apreciado de maneira diversa quando em fases diferentes de crescimento e amadurecimento afetivo, cognitivo e psicológico de crianças e adolescentes. Desse modo, o catálogo indica suas seções de acordo com as etapas do processo de aquisição, domínio e fluência da leitura, tais como:
Para crianças que se iniciam na leitura – Histórias que privilegiam a relação lúdica com as palavras, na qual os jogos sonoros e as brincadeiras dão o tom da obra. Nesses livros, muitas vezes, há ainda um predomínio da imagem sobre o texto, pois o papel dela, nesses casos, é dar suporte à leitura da obra. Os livros de imagem são muito apreciados nessa fase porque permitem que a criança crie e conte sua versão do conto tradicional ou narrativa contemporânea. Essas vivências permitem à criança perceber a riqueza e os mistérios do mundo da leitura, antes mesmo de se alfabetizar ou durante a fase de alfabetização.
Para crianças com autonomia de leitura – Histórias para crianças que começam a desenvolver o pensamento subjetivo, tomando contato com as figuras de linguagem, comuns à linguagem literária.
Para leitores fluentes – Histórias que criam paralelos, por semelhança ou diferença, com a experiência de vida, por meio de analogias, algumas poéticas. Apresentam a prosa poética de ritmo marcado, o texto memorialista, de humor, melodramático, de suspense, terror ou mesmo
de literatura fantástica. É um tempo de descobertas no mundo da linguagem escrita.
Para jovens e adultos – Histórias com alguma complexidade, tanto em estrutura narrativa quanto em conflitos humanos, que podem ou não levar a questionamentos de ordem existencial, ética, social e política.
Leitura compartilhada ou para ser contada – A famosa “para todas as idades”; livros informativos e/ou de histórias de tradição oral que valorizam a riqueza e a diversidade humana, natural e cultural do nosso país, voltados para a difusão de novos olhares nas áreas da educação, do empreendedorismo e do meio ambiente, bem como na de literatura infantil e juvenil, com indicações das premiações recebidas e as adoções das obras por órgãos públicos.
Ao caminhar no universo dos livros, o leitor poderá desfrutar da variedade de olhares da estética literária, dos quadrinhos, do cinema, do teatro e da dança. Esse universo abre para ele uma gama de trocas variadas a serem vivenciadas com seus pares, bem como no ambiente escolar e, mais tarde, no universo do trabalho.
NOVIDADE
Por fim, para o acesso aos livros de forma mais pontual e aprofundada, apresentamos um índice temático das obras, para que o leitor/educador visualize as principais linhas editoriais. Essas linhas levam a novos olhares nas áreas da educação, do empreendedorismo e do meio ambiente, bem como para a publicação de literatura infantil e juvenil de alta qualidade.
O índice temático está dividido em oito linhas mestras:
1) Vez e voz do índio: mitos e lendas – Até vinte anos atrás, as editoras despejavam alguns mitos e lendas indígenas na forma de tradução de uma cultura para outra. Olívio Jekupé, Daniel Munduruku, Kaka Werá Jecupé, Renê Kithãulu e Yaguarê Yamã resolveram mudar o jeito de apresentar a riqueza e a beleza de suas culturas por meio de mitos e lendas. Eles proporcionaram o acesso à sabedoria ancestral e à sua vigorosa relação com a natureza. Os povos indígenas têm muito que nos ensinar acerca da vida cooperativa, do amor às crianças, do respeito aos idosos e ao meio ambiente. A Peirópolis tem desenvolvido linhas editoriais de reconhecimento da diversidade cultural e dos valores comuns a todas as culturas e tradições, com destaque para coleções dedicadas à cultura indígena, ilustradas pelas próprias crianças do povo retratado.
2) Meio ambiente e infância – Os ciclos da natureza estão sofrendo por causa do crescimento desmesurado das cidades, da poluição da terra, do ar e das águas. Com a intenção de aproximar crianças das questões ambientais, a editora mantém uma série que integra a temática da natureza, em livros de poesia, prosa e informativos para crianças, jovens e educadores.
3) Brincar com as palavras, o lúdico, a oralidade e a música – Crianças adoram brincar com sons; ouvem cantigas de ninar, balbuciam sons. Elas estabelecem uma relação lúdica com a palavra. Em determinada fase da vida inventam palavras, criam novos usos para as existentes, se envolvem com a música, arte que exercita de forma original todos esses elementos. Nos livros da Peirópolis ouve-se a voz do índio, do negro, das comunidades tradicionais brasileiras, do português e da formação da nossa língua portuguesa. Aqui há lugar para o brincar com as palavras, como diz José Jorge Letria, ou para os brinquedos invisíveis de Chico dos Bonecos.
4) Poesia na infância – Bartolomeu Campos de Queirós diz: “Para se dirigir aos mais jovens, não se faz necessário empobrecer a linguagem e forçar rimas fáceis para revelar o assunto”, e Henriqueta Lisboa “reconhece a infância como lugar da poesia pura, em que a metáfora não é procurada, mas figura encontrada quando se vive em liberdade – plena e inquieta – diante de um mundo inteiro para ser nomeado”. É por isso que a poesia tem lugar de destaque no catálogo da Peirópolis.
5) Aventura/curiosidade – A arte, a ciência e a vida mantêm uma forte relação porque lidam com a descoberta, o desenvolvimento de ideias e técnicas, a inserção do pensamento novo que tudo transforma e revela. Por isso, as histórias plenas de aventura, daqueles que se entregam ao desconhecido e desbravam novos horizontes, os livros que informam sobre novas descobertas da Ciência, como a existência de dinossauros no Brasil, estão tão presentes no catálogo da Editora Peirópolis.
6) Literatura dos afetos – A vida de hoje nos grandes centros urbanos envolve o sentimento de que o tempo está a cada dia mais escasso e isso se reflete diretamente no universo dos sentimentos humanos. Se a falta de tempo e dedicação é recorrente no universo dos adultos, o universo infantil está se iniciando nesse universo e muitos dos conflitos surgidos entre colegas e amigos na escola e na vida pessoal merecem e necessitam ter voz e expressão. A literatura dos afetos é justamente um incentivo para que adultos, crianças e adolescentes exponham e conversem sobre esse fundamental, rico, complexo e profundo universo dos afetos.
7) Linguagem visual: histórias em quadrinhos e livros de imagem – A criança em fase de alfabetização faz do livro de imagem uma vivência lúdica e mágica, da qual extrai uma intensa e contemplativa experiência estética, acostumada que está, nos dias de hoje, com imagens fugidias e passageiras vislumbradas nas mídias eletrônicas em geral. O livro de imagem, gênero pouco cultivado pela cultura brasileira, encontra lugar na Editora Peirópolis e é alçado, como na cultura japonesa, ao status de livro de arte, como são considerados também os livros que compõem a coleção Clássicos em HQ, cujo propósito é formar leitores e diminuir as distâncias entre a alta literatura e os jovens. A forte relação que os adolescentes mantêm com a linguagem visual é um convite para que conheçam
uma variedade de expressões estéticas desenvolvidas por artistas brasileiros como Caco Galhardo, Eloar
Guazzelli, Fido Nesti, Laerte Silvino e Piero Bagnariol.
8) Livros teóricos para o educador – O catálogo da Editora Peirópolis se preocupa em dar subsídios ao professor nas suas várias linhas editoriais e temáticas. Desse modo, o educador tem a chance de se aprofundar em várias questões que permeiam as propostas das obras infantis e juvenis da editora.
A coleção Cuidar bem, de Adelsin, é um bom exemplo de livros para crianças e que apresentam, também, propostas aos professores. A questão do meio ambiente encontra respaldo no livro Pedagogia da Terra, de Moacir Gadotti, e em termos práticos no livro Hortas na educação ambiental, de Maria Célia B. Bombana e Silvia Czapski.
A influência da tecnologia no cotidiano escolar encontra reflexão e propostas de trabalho nos livros Linguagem, tecnologia e educação, de Ana Elisa Ribeiro e outros, assim como em Mobimento: educação e comunicação mobile, de Wagner Merije.
O trabalho com os Direitos Humanos encontra diálogo com o livro Aulas de transformação: o programa de educação em direitos humanos e em História social dos direitos humanos. E, para um trabalho mais aprofundado com as obras de quadrinhos, há o livro Pescando imagens com rede textual: HQ como tradução, de Andreia Guerini e Tereza Virginia.
Para lidar com o espírito aventureiro e a curiosidade infantil, uma boa reflexão advém do livro Ciência, arte e jogo, de Adriana Klisys. Desse modo, a Editora Peirópolis acredita estar dando sua participação social para que uma Educação de Valores ocorra no universo escolar e portanto, se reflita no sociedade como um todo.
A Editora Peirópolis tem um perfil muito bem definido e afinado com sua missão!
Ana Lúcia Brandão*
Mestre e doutoranda em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, desenvolve projetos de literatura infantil e juvenil que buscam estimular o gosto pela leitura e literatura em crianças. Foi resenhista de livros infantis da Biblioteca Monteiro Lobato (São Paulo, SP) para a Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil, tendo acompanhado a produção nacional de livros para crianças e jovens por mais de duas décadas.
*Texto escrito por Ana Lúcia Brandão para o catálogo de 20 anos da Editora Peirópolis