Livro
A primeira vez que peguei um livro na mão,
Eu tinha quinze anos
E percebi sem saber direito
Que dentro do livro a vida se escrevia sem fim,
Se escrevia do começo da minha casa
E ia até o final das estrelas.
Depois voltava
E ficava ali na palma da minha mão,
Sempre vinha.
Por isso ainda essa saudade, não do “tempo perdido”,
O tempo nunca se perde quando acontece,
Saudade só das palavras que eu não vivi,
Esse sentimento de falta que é puríssima presença
E é ausência assimilada como diz Drummond,
Motivação para escrever querendo tanto fazer existir
O que ainda não existe.
Vontade de ler o que ainda não foi escrito,
O que é caligrafia de gente que nunca leu
E talvez nunca venha a ler
O que nunca será escrito,
Mas já é letra colada à vida,
Presença e isto diz tudo.
Presença da realidade solta,
Então escondida e depois tão tocável,
Promessa do que eu ainda não tinha vivido,
Do que eu ainda não sabia nas páginas,
Do que eu ainda não via por trás das palavras,
Do que eu ainda não sabia como não se sabe
Uma promessa que é porção virgem
Do que se vai saber
E do que nunca se saberá porque o que não se sabe,
Querendo saber e se pode saber sempre,
Agora, agora, agora,
É um livro na plenitude
Sempre tão provisória da vida.
A primeira vez que eu peguei um livro na mão,
Eu, sem saber sabendo, peguei a vida,
A vida diluída, a vida distraidamente eterna,
A vida despossuída com tanta palavra dentro,
A vida traída por falta de palavras, de verdades mentirosas,
De mentiras tão verdadeiras,
A vida de verdade mesmo,
De traição por ausência do que ia ser,
Do que já devia ter sido e era tão bom que ainda não era,
Que já estava sendo e era tão bom como qualquer coisa
Que se promete,
Que era quase tão bom como traição de amante mesmo
Que depois se torna tão fiel como água dentro da água,
Sincero como a ingenuidade de dois trens que trilham
Distraídos, juntos,
Como um encontro de iguais
Que resolve morar dentro de um livro.
Um livro sem o menor atributo
Porque isto diz tudo.
Um livro que avisa que o destino
Da vida guardada num livro
É de nunca saber o bastante
Que livro é como lâmina que recorta a vida,
Que é enseada que abraça,
Abraço sincero numa ilha em sol aberto
– Não há o que melhorar.
Livro é como fazer um breve movimento
E comungar a mão que escreve
Com os olhos de quem lê.
Por isso essa saudade,
Essa doce tristeza
De nunca saber sabendo tanto
Que livro sabe silenciosamente
De nós.
Isto desde a primeira vez que eu abri um livro.
Esqueci de escrever:
“Livro aqui nunca é só palavra,
Livro é página
Que inventa A VIDA.”
copyright do autor
* Jorge Miguel Marinho é professor de Literatura, coordenador de oficinas de criação literária, roteirista, ensaísta e ator. É autor de 25 livros, vários deles premiados, e contos publicados nos Estados Unidos, na França e em países da América Latina. Em setembro de 2007, lançou O boi cor-de-rosa pela Editora Peirópolis.
OI
DE TODA A POESIA ENCRAVADA NUM LIVRO
O ÚLTIMO DESTAQUE DIZ TUDO”LIVRO NÃO É SÓ PALAVRA É VIDA”
VIDA SENTIDA, VIVIDA, CONCEBIDA EM CADA FRASE, QUE VIRA VERSO……
PENA QUE TEMOS QUE VASCULHAR PELA INTERNET COISAS BOAS COMO ESTA.
PARABÉNS JORGE, PELA TUA COLETÂNEA DE LIVROS EXPANDIREM-SE MUNDO A FORA.
SARA ROSA